Crônicas do Alexandru Solomon e contadas mais

Aqui, o autor e escritor Alexandru Solomon certamente não deixará o leitor indiferente, porém, dentro de uma leitura com frases bem construídas… O dia a dia, a política, e também o bom humor que prevalece. Desfrutem!

26/1/12

Fábula sem moral.

Revelações de um antigo manuscrito, encontrado por um arqueólogo amador. A autenticidade do documento suscita profundas controvérsias no mundo acadêmico. A hipótese de tratar-se de um documento apócrifo têm uma legião de partidários. Vamos ao papiro, ainda em excelente estado de conservação, antes que seja confiscado.
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Num reinado, onde em se plantando, tudo dá, o bobo da corte está fazendo anotações num caderno… Não para de escrever. Está concentradíssimo. O bobo-adjunto faz graçolas que, por vez, arrancam um sorriso real. O bobo-adjunto sonha tornar-se , um dia, o bobo-pleno.
· – O que escreve aí, companheiro bobo? – pergunta – intrigado – o monarca Lulix I, o gaulês. O queixo do monarca treme – sinal de profunda impaciência. Os olhos majestáticos emitem relâmpagos no espectro ultraviolento.
· – Anoto os nomes dos tolos do reino. A propósito, acabei de colocar o nome de Vossa Majestade nessa relação… com todo o respeito que jamais me faltará.
· O queixo do monarca quase cai. Mal consegue reprimir a fúria que o acomete. O crime de lesa-majestade está tipificado.
· – Mas que ousadia, verme imundo! Antes de mandar açoitá-lo, até seu lombo sangrar, esquartejá-lo ou atirá-lo num calabouço de onde jamais sairá com vida – ainda não decidi – pergunto-lhe qual o motivo dessa insolência? Já é um bobo estável no emprego. Quer perdê-lo, ficar sem o fundo de garantia? – a voz tonitruante da Majestade indignada faz vibrar os cristais do lustre do palácio real. Cesse tudo que a antiga musa canta, quando essa voz se alevanta. Um bardo caolho, de passagem, acha bonita essa parte e jura em sottovoce aproveitar essa observação.
· O bobo faz uma profunda reverência e retruca, pálido ao perceber o quanto irritou o rei, arrasado pelas negras perspectivas quanto ao seu futuro próximo. Finalmente articula:
· – O motivo é simples: Vossa Majestade entregou o Ministério X ao seu súdito, o Sr. Z da chamada base aliada. Ele vai roubar até cansar, se é que roubar cansaria o Sr. Z. Fraudar e roubar é só começar.
· – Jamais prejulgue, serviçal indigno! E se não roubar, miserável fofoqueiro? Chega de dar ouvidos às maledicências do PIG! Por acaso grampeou as ligações telefônica do impoluto Sr. Z? Sua função – consta no job description, homologado pelo ISO – é divertir-me. Repito a pergunta: E se ele não roubar (ou pelo menos se o malfeito não for comprovado, por ser bem feito)? Responda, candidato à forca!
· – Nesse caso retirarei o nome de Vossa Majestade e colocarei o dele…
A partir desse ponto, o manuscrito torna-se ilegível

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… A substituição dificilmente acontecerá, dizem as más línguas.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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8/1/12

Che gelida manina

Pouco à vontade, endireitou o nó da gravata, e, estático, olhou em volta. Sentia-se um perfeito estranho, naquele ambiente cheio de rostos conhecidos. Um raio de sol, hesitante e retilíneo, abria uma fresta luminosa no ambiente cinzento
Frustrado pela própria inação, pegou a mão da mulher e a segurou com firmeza; um gesto automático. Indiferente, deixou que alguns, vários, incontáveis minutos transcorressem. Desde os tempos do namoro às escondidas, aquele simples ato possuía uma gama interminável de significados. Com o tempo, haviam conseguido desenvolver uma série de códigos, apenas por eles decifráveis, a partir de sutis variações na intensidade ou duração do toque. Muitas vezes, nem era preciso falar. Falar para quê? Brigas, reconciliações, declarações de amor, reprimendas, intimações ao silêncio eram expressos assim, sem o uso de palavra alguma. Desde o toque neutro do caminhar pensativo na rua até o convite ao amor, nada havia que não pudesse ser traduzido através de uma intensidade diferente da compressão. Quantas variações possíveis! O habitual segurar sem força, a transmitir paz, comunicando a presença solidária, o aperto rápido para evitar uma gafe iminente, a seqüência alternando apertos fortes e fracos para dizer: Quero agora, e o resto do mundo que se dane!…
Tudo começara num baile carnavalesco, décadas atrás. Ao convite de sair por uns instantes do salão e fugir dos olhares vigilantes da “vela”— o irmão maior, bem mais velho e chateado por ter de ficar vigiando, aos 16 anos, a irmã três anos mais nova, no meio daquele monte de pirralhos — ela respondera com uma risada, encantadora risada pré-adolescente e um beliscão no braço. Não poderia existir um “sim” mais explícito. A lembrança da mão gelada naquela tarde abafadiça de fevereiro, ou teria sido março, nunca o abandonara. Naquele momento, marcado definitivamente na memória, saboreou o triunfo maior à sua maneira: Sentiu frio, calor, um filete gelado de suor escorrendo nas costas e o batimento acelerado de um coração em pleno aprendizado do que significava amar. Queria que o momento se eternizasse – tanta felicidade não poderia ter fim — desde que a ninguém fosse dado entender o motivo de tamanha alegria. Segurar a mão de uma menina, mesmo no meio da algazarra própria de um evento momesco era, para aquela época, uma façanha digna de registro e, ao mesmo tempo, algo a ser guardado como segredo de Estado, se bem que muitos amigos da classe costumavam se gabar por conta de feitos bem mais gloriosos, mesmo se de impossível comprovação. Sempre as mesmas conversas, contando vantagens, para, em seguida, mudar logo de assunto, receosos de não poderem defender suas versões fantasiosas. Ele era diferente. E ela… ela era… ela era… tão… Impossível definir.
“Mais de mil palhaços no salããão”… Ninguém notara no meio de tantos confetes e serpentinas a saída deles. Pelo menos, o implacável protetor fora ludibriado. Naquele instante, jurou ser o destemido guardião do arcano e que se preciso fosse, negaria, mesmo se torturado — imaginou até a quais torturas poderia resistir — o atrevimento de ambos. Nem ao melhor amigo, o ruivo Gustavo, poderia confidenciar. Seria alvo de impiedosa gozação, objeto de chacota no recreio. Outros tempos… nem melhores, nem piores, apenas diferentes. Quando, ainda descrente da felicidade que se abatia sobre ele, apoderou-se entre apavorado e autoritário daquela mão, não pôde deixar de estranhar, e em voz alta comentou:
— Mas como está fria sua mão.
— Che gelida manina, é?
— O quê? — Ela explicou tratar-se de uma ária famosa da ópera La Bohême. Ele nunca ouvira falar na tal La Bohême e, logo sentiu que enrubescia, enquanto ao som de um ensurdecedor “Mamãe eu quero” recebeu a explicação. Sentiu-se ignorante, infeliz, ridículo. Fazer feio assim, na primeira oportunidade foi um choque, logo dissipado pela pressão afetuosa — não estava sonhando — das mãozinhas geladas, que, mais tarde, se transformariam no mais doce par de algemas que pudesse imaginar.
O feitiço daquele contacto desafiou os anos. Caminhar de mãos dadas, mesmo tendo virado um hábito, bem depois de significar quase um ato de rebeldia num passado já brumoso, renovava o sentimento de plenitude, melhor que qualquer frase de efeito. Era um presente — e existe algo mais maravilhoso do que poder presentear o ser amado? — testemunho de uma paixão que se perpetuava através desse ato singelo. A felicidade assim adquirida não se devia à conquista de algo que porventura lhes faltasse em algum momento e sim, a tudo que encontravam na suprema banalidade de um gesto tantas vezes repetido. Fora tão fácil sentir a ventura de atravessar a vida sem experimentar a necessidade de questionamentos estéreis ao se assenhorearem naturalmente daquilo que para tantos é motivo de infrutíferas buscas. Que indescritível sensação a de deter o segredo do milagre maior!
Nos momentos felizes, aquele aperto selava a sensação de júbilo, assim como nos momentos difíceis era o refúgio seguro para livrarem-se da angústia.
Sentiu um esbarrão. O faltoso murmurou algumas palavras de desculpa e se afastou. O que estavam fazendo à sua volta aquelas pessoas?
Sem abandonar a mão dela, perscrutou o ambiente. Melhor seria saírem de lá o quanto antes.
Uma voz tirou-o do torpor:
— Com licença, doutor, precisamos fechar o caixão.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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8/12/11

Consultoria.

Um frisson (mais um) percorre a espinha dorsal da Nação. Será o ministro Fernando Pimentel culpado da vilania que vozes açodadas lhe imputam primeiro em surdina, e já em inconveniente crescendo? Estariam com razão aqueles que encontrarem semelhança com a famosa ária de Don Basilio: La calunnia è um venticello? Ou, deixando Rossini de lado, teria o atual ministro recebido uma remuneração por trabalhos sem ao menos (em dois casos) haver contratos que formalizassem termos e condições da prestação de serviços, substituídos pelo tradicional fio de bigode? A FIEMG utilizou efetivamente esses trabalhos de que seus associados precisavam? Dramatizando, seria ele o próximo ministro a cair? Por enquanto, Sua Excelência não pode ser acusado sem haver provas. Mas no caso presente, como no clássico exemplo da mulher de Cesar, é preciso além de ser honesto, parecer sê-lo.
Caso o ministro FP tenha prestado realmente consultoria, nada mais fácil de comprovar – lembrando que recolher IR sobre dinheiro recebido não significa ter sido a renda tributada resultado do trabalho de consultor solitário. Bastará mostrar os belos volumes encadernados nos quais Sua Excelência destilou sua perícia, no período de ‘quarentena’ em que a excelência limitava-se à qualidade do trabalho intelectual, colocado em dúvida por integrantes do detestável PIG. Na ausência desses vistosos cadernos, bastaria um (ou mais) pen drive. Palimpsestos poderiam ser aceitos, afinal, vale sempre a ‘última forma’.
Caso os trabalhos sejam confidenciais, por exemplo, um plano de contingência na hipótese de um tsunami em Minas, indique-se uma pessoa isenta – parece que ainda existem dois ou três exemplares em vida –, ou uma comissão com algum preparo para dizer à Pátria aflita: Os trabalhos existem e fazem sentido. Não será necessário responder à pergunta: Valeram o dinheiro gasto? Será desnecessário porque não existe uma tabela de custos de exprefeitofuturoministro/hora.Quem assistiu O belo Antonio, haverá de se lembrar da cena do lençol nupcial.
Caso os trabalhos estejam no padrão – Nos trechos com neblina, use farol alto – com um pouco de cara dura, será possível dizer: Pagaram porque quiseram. Ninguém os obrigou.
Se não surgir algo ‘muito ruim’, tudo indica que o Sr. Ministro estará mais tranqüilo que a superfície do lago Baikal, em pleno inverno.
É isso aí.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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4/12/11

Concurso Talentos da maturidade

O concurso Talentos da maturidade, promovido pelo Banco Santander, que o herdou do banco Real, chegou ao fim. Participei na modalidade literatura, e devo ter me colocado em algum lugar entre o sexto e o milésimo - já que apenas 5 trabalhos por modalidade foram premiados.
Como comentário final, não vejo motivo para que a competição se restrinja a participantes ao menos sexagenários. Lembro-me bem da minha contrariedade aos 59 anos por não poder participar. Não se trata de uma prova atlética, então por qual motivo segregar por idade? É o tipo de discriminação positiva que não acrescenta muita coisa. Só falta imaginar concursos literários para deficientes auditivos ou para pessoas acima (ou abaixo) de 90 quilos. Concordo que um peso mosca não deva subir no ringue para medir forças com o George Foreman. Mesmo hoje, correria o risco de levar uma pancada com a famosa frigideira - o que seria melhor do que um soco vindo dele. No entanto , no caso de um concurso literário, isso não faz sentido. Não vejo com simpatia esse tipo de convite tipo ‘canto do cisne’, ou “eles ainda tem muito para contar”.O QUE NÃO É O CASO, NEM A INTENÇÃO DOS ORGANIZADORES - suponho. No Cid de Corneille há a réplica famosa: La valeur n´attend point le nombre des années….o valor ( no sentido que o autor quis dar) não espera a idade. Surgiu, posteriormente, uma variante engraçada ” La valeur ne craint point le nombre des annés” - ou seja, o valor não teme a idade.
Li depoimentos emocionados de pessoas agradecendo a oportunidade de participar, como se a partir dos 60 todas as portas estivessem fechadas, menos essa. Como diria o filósofo contemporâneo Paulinho da farsa, seria esse um certame de ‘gagás’? Levante a mão quem achar que sim.
Uma vez escrevi a respeito das exclamações bobas do tipo….”ele tem apenas 7 anos e já…”.com a recíproca ‘ele tem 72 anos e ainda…’ .Fiquem a vontade para substituir as reticências com tolices que seguramente já devem ter ouvido.
Isso quanto à filosofia da competição. O modus operandi não merece críticas, apenas elogios.Prova disso é a quantidade de participantes, o que deve ter tornado infernal a tarefa dos jurados.
Como sugestão- impossível não dar palpites, mesmo que seja de um perdedor -:Que tal publicar uma classificação geral, já que todos os trabalhos ao passar pelo crivo dos jurados levaram uma nota, ou se o critério tenha sido parecido com o modelo empregado atualmente na Fórmula 1, houve peneiradas sucessivas, até chegar à última.
Muito grato e (quem sabe) até a próxima edição!

Os interessados em conhecer meu conto A luta continua poderão acessar o site www.talentosdamaturidade.com.br, ou aguardar meu póximo volume de contos.

Alexandru Solomon, escritor

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28/11/11

Verdade, mentira…

In pianto e riso, è menzognero
Temos uma Comissão da Verdade. Este fato provocou acalorados debates e negociações, resultando um produto cuja utilidade somente poderá ser avaliada após ter cumprido a missão que lhe foi designada. Não há de minha parte a intenção de adotar uma posição radical favorável ou contrária a essa Comissão. Aguardemos os resultados. Obviamente, faz sentido questionar o horizonte de tempo que se propõe analisar, indagar por qual motivo ficaram de fora períodos importantes de nossa História antes e depois do momento histórico que ficará sob a lupa de um comitê de sete ‘notáveis’. A pergunta: “por que não a partir de – por exemplo – 1930?” ou “por que não até hoje?”, ou ainda “ por que esse tratamento hemiplégico da verdade”, não poderá encontrar outra resposta a não ser uma platitude: Os vencedores escrevem a História.
A revogação de fato ou de direito das leis da anistia em maior ou menor grau em toda a América Latina poderá reabrir antigas feridas. Resta saber se será possível falar num resultado positivo dessa medida.
Na vizinha Argentina está “no forno” a proposta de redesenhar alguns perfis de políticos. Esse processo estaria fundamentado numa adaptação da realidade que satisfaça a visão da presidente Cristina Kirchner em contraposição àquilo que gerações aprenderam, isso porque para a presidente do país vizinho, até agora prevaleceu a visão de vencedores em diversos momentos históricos. Exagerando, será que reescrever manuais históricos influirá o futuro da Argentina?
O caso brasileiro nem de longe chega a esse extremo. Aparentemente, o que se pretende é lançar uma luz – que se quer objetiva – sobre o período em foco. Portanto não se tem – em tese – a intenção de chegar a extremos como as “revisões” praticadas na antiga União Soviética, ou nos seus satélites, quando personagens considerados heróis passavam, sem maiores explicações, à categoria de vilões, tendo seus nomes apagados dos manuais de História e seus retratos eliminados de fotografias oficiais – bem antes do advento do Photoshop. Revanchismo? Talvez. Derrubar estátuas de Stalin, depois das revelações de Hruschov (nada de Kruchev) foi a conseqüência visível do surgimento de uma verdade soterrada por longos anos.
A História está repleta de “mentiras”. Somente numa perspectiva histórica será possível determinar as estaturas reais, a ‘verdadeira grandeza’ de perfis públicos. Historiadores empolgados, ou alinhados com os poderosos do momento, bosquejaram retratos que não resistiram ao tempo. As camadas embelezadoras e/ou suas contrapartidas negativas desapareceram, mas esse é um processo que leva décadas ou séculos. Até esse ponto, D. João VI continuará uma nulidade bulímica, Robespierre será o ‘incorruptível’, Pôncio Pilatos será um vitorioso preocupado com a limpeza de suas mãos, e José Sarney… bem, o tempo dirá, ou será que já disse?
Para períodos curtos, prevalecerá a ‘lei de Goebbels”, segundo a qual uma mentira repetida tende a se tornar verdade. Entre nós, a contestação de algumas dessas ‘verdades’ é rotulada de “desespero de reacionário”, ou produto do PIG. Contestar ‘verdades oficiais’ recebe o nome de “tentativa de golpe”, “moralismo udenista” etc.
Mas o que é mentira? Seria apenas uma afirmação contrária à verdade a fim de induzir a erro, ou um juízo falso. Parece ‘pobre’ a idéia de definir mentira a partir do que ela não é. Vale a pena refletir com que objetivo uma proposição mentirosa deturpa a realidade. Ou ainda se a proposição falsa resulta de uma falta de conhecimento ou foi formulada com propósito defensivo. Algo como “Não é o que você está pensando, querido”. Mentiras como essa, assim como o pintor Toulouse Lautrec, têm pernas curtas. “Sem mentiras, a verdade morreria de tédio e desesperança” sentenciava Anatole France.
“Querida, seu vestido está um sonho”, ao invés de “esse vestido a deixa como uma salsicha” não deixa de ser uma agressão voluntária à maneira de ver de um marido que está preocupado em não chegar tarde no jantar promovido pelo “chefão”. Convenhamos, é uma mentira, mas é algo inofensivo assim como “esse corte de cabelo foi um achado” ou “adoro o lombo que minha sogra prepara”. Vamos nos indignar com o filho que afirma com o rosto lambuzado de chocolate nos disser: “Mami, foi o Abner (o cachorro do casal) que comeu a torta”? De forma alguma, uma vez que umas palmadinhas poderão nos tornar réus aos olhos de uma lei de méritos discutíveis.
Não entram nessa categoria: ”terei de preparar a revisão do orçamento e chegarei tarde” e muito menos: “nós não roubamos nem deixamos roubar”, tão em voga. Nesse último caso, é possível dizer que a orientação política é uma inimiga muito mais acerba da verdade que a mentira que resultou.
Então, só nos resta dizer, a exemplo de Pablo Neruda que: “A verdade é que não há verdade”?
A discussão corre o risco de se alongar perigosamente ao invadirmos o terreno pantanoso das omissões. Deixar de mencionar um fato, movidos por dolo, seria mentir. “Jamais menti, mas confesso que já deixei de contar toda a verdade”. Esse é o CEP do perigo. Ou, é aí que mora o perigo. Isso sem contar que contar de maneira proposital somente uma parte da verdade é dar mostra de má-fé.
Não é sem motivo que se pode afirmar que duas meias-verdades não compõem uma verdade inteira.
Ao afirmar que é preciso dourar a pílula, Baltasar Gracián assim se referiu à verdade: “Ela é perigosa, porém o homem de bem não pode deixar de dizê-la”.
Serão nossos políticos “homens de bem”?

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14/11/11

Peripécias irrelevantes

Somos – sem exceção – humildes atores ensaiando uma peça cujo final nos é totalmente desconhecidos. Ainda bem. Estou de volta depois da minha 21ª maratona de Nova Iorque. Mesmo sem saber o que nos espera prefiro referir-me a essa prova como sendo a mais recente. Falar em última seria carregar nas tintas do pessimismo, mesmo porque o final da peça à qual me referi acima não me foi revelado.
A corrida em si foi, como sempre, aquele evento maravilhoso. Mesmo sendo minha 61ª maratona – considerando meu currículo inteiro – a emoção se fez presente. Como não pretendo falar na corrida, direi que meu desempenho não foi dos melhores e poderei alinhar uma série de “circunstâncias extenuantes” para justificar o resultado: um joelho avariado (apesar de ter sido operado por um dos papas do joelho), um estiramento na coxa da outra perna, o que me fez mancar das duas pernas e uma gripe com a qual fui contemplado na antevéspera da prova, com direito a presença de médico etc. e tal.
Enfim.
Nada como viajar, rever lugares conhecidos e arriscar incursões em novos espaços. Mas para tanto é preciso chegar lá. E para chegar precisa ensaiar alguns passos do samba do crioulo doido – se é que a tribo do politicamente correto me permite assim dizer. Para acalmar censores implacáveis retiro o crioulo doido e o substituo por afrodescendente com problemas neurológicos. Pronto.
Confesso que devido às vendas espetaculares dos meus livros, viajei em classe executiva, affaires, business class, ou dito de outra maneira, em classe antieconômica – mesmo com o risco de levar a pecha de fomentador da luta de classes, conceito grouchomarxista que não me seduz.
Pois bem. Com o crescente rigor, presente em todos os aeroportos, para embarcar é preciso passar por um controle rigoroso. No moderníssimo aeroporto de Guarulhos, apinhado de gente, mesmo sem estar em plena Copa do Mundo – já sei, estamos nos preparando e tudo corre de acordo com o cronograma – foi preciso enfrentar uma fila para o controle de passaportes e passar pela intransigente inspeção de bagagens de mão. Macaco velho – ou seria mais adequado dizer primata provecto? – não estava carregando nenhum objeto que pudesse ser usado para seqüestrar a aeronave. Nada de cortador de unha, frascos contendo mais de 100ml de qualquer substância líquida, enfim nada…
De forma algo paradoxal, descobri que os talheres usados para as refeições a bordo eram de metal. Nada de passar um cortador de unhas, em compensação facas de corte afiado, com as quais poderia… Vá entender!
A volta foi ainda mais engraçada, já que as medidas de segurança no JFK são ainda mais rígidas – claro que depois os talheres são os mesmos.
Por um motivo que não conseguiria explicar resolvi embarcar com meu monitor de freqüência cardíaca, cuja marca não declinarei, uma vez que a Polar não remuneraria esse tipo de merchandizing. Os leitores do meu imortal Um triângulo de bermudas, bem como todo atleta de fim de semana sabem que há um relógio incrementado e uma faixa colocada sobre o peito que permite monitorar os batimentos.
Tive de, a semelhança do então embaixador Celso Lafer, tirar os sapatos e o cinto e passar por uma engenhoca que ‘scaneou’ meu corpo cansado, bem como as vestes autorizadas. Retirar e recolocar os sapatos são atos que requerem um certo equilíbrio ou na falta deste uma cadeira. Maratonista dispensa cadeira. Dediquei um pensamento enternecido ao NOSSOEXPRESIDENTE (se o Canard Enchainé sempre se referiu a De Gaulle como Mongénéral, por que não Nossoex? Não me canso de repetir) que desde sempre se insurgiu contra esse procedimento, proferindo a inesquecível frase: “Ministro meu não tira os sapatos”. Não sendo ministro, cumpri docilmente a exigência.
Eis que um empregado da TSA – transportation security administration – aproximou-se de mim, e polidamente pediu para me apalpar. Se o gesto poderia ser classificado de assedio ou não, fica a critério do leitor. Em seguida, decretou. “O senhor está usando um dispositivo no peito”. Disse-o num português rudimentar, mas à la guerre, commme à la guerre. Retruquei tratar-se de um sensor, o que em nada o acalmou. Levantei a camisa, gesto pelo qual fui gentilmente repreendido pela ‘otoridade’. Percebi o quanto essa forma impensada de agir poderia ter ferido o pudor anglo-saxão, mas já era tarde. Dezenas de retinas já haviam sido ofendidas. Mesmo assim, o fiador da segurança aeroportuária parecia alimentar dúvidas. Provavelmente passou-lhe pela cabeça que estaria eu interessado nas 72 virgens prometidas aos mártires que andam se explodindo, e insistiu: “para que serve isso?”. Fato sabido: quanto menor o grau hierárquico de um funcionário, maior a propensão a criar enroscos.
Foi quando me lembrei de um filme maravilhoso: Amici miei, no qual por diversas vezes o inesquecível Ugo Tognazzi, quando confrontado com um interlocutor incômodo, saia-se com uma frase delirante. Algo assim: “Supercazzola prematurata a la seconda com scapelamento a destra”, tudo dito com uma velocidade de fazer inveja a um locutor esportivo.
Imediatamente recitei: Sofro de variações da freqüência cardíaca que eventualmente pode alcançar níveis considerados perigosos e ao detectar tal fato tomo de imediato um betabloqueador.
Funcionou. Fui liberado e tive, finalmente, direito aos talheres de metal que em nada comprometem a segurança das aeronaves, diferentemente dos perigosíssimos cortadores da lâmina dura, formada de queratina, que recobre a última falange dos dedos das mãos e dos pés – segundo define o Houaiss.
Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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4/11/11

Almanaque anacrônico

“Depois de mim o dilúvio”, exclamou Luís XV. Para aqueles que estudaram história e sabem tratar-se de renomada marca de cigarro, ficou fácil perceber tratar-se de uma das primeiras mensagens contrárias ao tabagismo. Segundo se apurou, a inspi­radora dessa mensagem teria sido madame Pompa­dour. Outros, porém, afirmam que era apenas uma retaliação dirigida contra Winston Churchill, cujos charutos desagradavam à corte.
Mais do que a promessa de sangue, suor e lágri­mas, uma promessa líquida e certa, houve quem não se conformasse com o ritual que consistia em acender os charutos numa fogueira, presumivelmente a de Joana D’Arc. E foi para evitar as queimaduras pela proximidade do braseiro que os charutos Churchill, doble corona, possuem o tamanho que tanto impres­siona. O ressentimento, porém, possui raízes mais profundas. Nem foi tanto pela qualidade da vitima do braseiro, e sim, muito mais pelo fato de haver sido preterido o isqueiro Bic, uma das glórias nacionais francesas, junto com o título de último campeão mundial de futebol do século XX.
A respeito de Churchill, ainda, as más línguas sustentam, que sempre procurou emagrecer, mas jamais conseguiu se livrar do hábito de comer pão, a tal ponto que, um dia, exasperada pela voracidade do ilustre estadista, Maria Antonieta teria exclamado:
“Se não tem mais pão, ofereçam-lhe brioches.” Mas, tamanho foi o pânico, e o corre-corre subse­qüente, que houve quem perdesse a cabeça.
O dilúvio motivou abertura de concorrência pública para a construção de uma arca.
A empreitada foi adjudicada ao desconhecido Noé, o qual superou por estreita margem o estaleiro Verolme. A construção da arca teve a supervisão da UIPA (União Internacional Protetora dos Animais), preocupada com os direitos humanos dos animais.
No trabalho da comissão julgadora da concorrên­cia o item que decidiu a vitória do Noé foi a capaci­dade de o seu artefato poder pousar num pico mon­tanhoso. Isto atraiu uma ação de impugnação da concorrência por parte do segundo colocado, e aguarda-se o desfecho da ação reparatória. Há mal-intencionados afirmando que a justiça é cega, e por conseguinte não enxergaria ter sido lesivo o contrato, mas há os que afirmam ser tudo um problema que caberia a uma CPI. A discussão continua girando acerca de quem seria o relator dessa CPI. A disputa estaria entre Pedro Álvares Cabral, Iuri Gagarin e o almirante Nelson, cujos detratores o queriam fora da contenda por ser caolho, e menos passível de fazer vistas grossas, devido à influência de Lady Hamilton. Evidentemente, sob a pressão da mídia, tudo será esclarecido brevemente.
O nome da embarcação foi escolhido sem muito critério como sendo Windows 95, nome que retratava o número de janelas colocadas. O nome Titanic, que também era muito cotado, foi descartado para que­brar o gelo entre Noé e a fundação Bill Gates.
Não há registros confiáveis cobrindo a odisséia do Windows 95, mesmo porque Homero, por desconhe­cer o alfabeto Braille (por ser cego), e encontrar-se a serviço da KGB, colocou, a exemplo de Nostradamus, os eventos em total desordem.
Dirão os leitores mais atentos que Nostradamus nasceu depois de Homero, mas ele tampouco assistiu o Kirk Douglas no papel de Ulisses.
Entre os bichos que se salvaram estavam o cachorro Rin-tin-tin, o burro Itamar, o bacilo de Koch e vários outros. Não estavam sendo admitidos ani­mais bêbados, razão pela qual alguns marimbondos de fogo não puderam embarcar.
Além de ter patrocinado a arca, Luís o bem-amado, monarca crepuscular, por suceder ao Rei Sol, deixou o reino arruinado, tanto é que a quantidade de sans-culottes era muito elevada. Decerto não se tinha a perfeição dos shows do Crazy Horse, mesmo porque os sans-culottes estavam cobrindo a própria nudez, embora sem grande êxito, a ponto de serem chama­dos de miseráveis.
Coube a Karl Marx, e não a Vítor Hugo, descrever a complexidade das relações de trabalho destes infeli­zes, num, hoje famoso, show da Broadway.
O próprio Karl Marx, compositor hippie da geração paz e amor, muito apreciado pela sua barba e pela sua urticária, assistiu algumas vezes Os Miseráveis, tentando convencer a todos, ser ele exímio dançarino de rap, e insistindo quanto ao fundo musical ser o do minueto de Bocherini.
Por divergências ideológicas com os produtores, ele foi substituído pelo seu dublê Friedrich Engels, fiel ao princípio de o fim justificar os meios. Impedido de atuar na Broadway, Karl Marx passou a viver de aulas de equitação. Possuía dois corcéis famosos o Corcel I, Bucéfalo, e o Corcel II, ou cavalo de Tróia, presente pessoal de Henry Ford, o seu irmão gêmeo e principal confidente, do Karl, não do cavalo.
A respeito do cavalo de Tróia, é possível hoje entender melhor a expressão “chifre em cabeça de cavalo”, pois o que motivou os companheiros de Aga­menon a sitiar Tróia foi um par de chifres, usados por Menelau, razão pela qual teria sido mais indicado usar-se um touro em Tróia, coisa com a qual Cassan­dra teria concordado de pronto. A infelicidade de Cassandra foi ninguém ter acreditado que, do lado dos troianos, o apoio da Xuxa poderia ter sido importante para conseguir Ibope, mas não para evitar a destruição. Coube a Schlieman identificar, nas ruí­nas de Tróia, o diário de algumas paquitas.
Mesmo atarefado com as aulas de equitação, Marx afirmou que havia um espectro rondando o mundo capitalista, e consta que este espectro teria sido visto pela primeira vez por Hamlet. Ao fazer um Cooper noturno, preocupado com o que havia entre o céu, a terra e a sua vã filosofia, o jovem príncipe ficou im­pressionado pela falta de asseio do fantasma, de onde as palavras “algo está podre no reino da Dinamarca”.
Naturalmente a frase fez sucesso, ao se constatar sua aplicabilidade em outros reinos, sendo, contudo, desnecessário estender o conceito a algumas repúbli­cas. Pode ser que aquilo tenha sido apenas o pesadelo de uma noite de verão, visto do lado errado do espe­lho pela Alice e pelo Pequeno Príncipe.
Neste ponto, torna-se necessário separar os prínci­pes em pequenos, que se tornavam eternamente res­ponsáveis por tudo que porventura viessem a cativar, como qualquer candidata a Miss sabe, e aqueles que, inspirados por Maquiavel, procuravam fazer o bem aos poucos e o mal de um golpe só.
Esta separação foi feita pela primeira vez por Heró­doto, pai da história. Curiosa época em que se conhe­cia o pai, a mãe tendo presumivelmente fugido.
Mas a carreira de Karl Marx como instrutor de equitação foi interrompida bruscamente, ao decidir entregar o cavalo de Tróia a Ricardo III, o qual – de tanto gritar “meu reino por um cavalo” – foi obrigado a entregar a Inglaterra ao barbudo Karl, com receio de poder ser levado a algum Procon por prática de pro­paganda enganosa. Assim, com o plantel reduzido a um Bucéfalo já bastante magoado por não haver sido ofertado ao rei, Marx viveu seus últimos anos em Londres, escrevendo ficção econômica, ramo que veio a prosperar de maneira incrível. No British Museum está exposta a mesa onde trabalhava, réplica da Távola Redonda, onde na ausência de cavalheiros, eram contratados figurantes. É sabido que por alguma fatalidade os cavaleiros de Camelot viraram camelôs em algumas cidades do mundo, constituindo o exército industrial de reserva. A tônica dos traba­lhos foi sempre polêmica, resultando de debates. Na ausência de debatedores, Diógenes era encarregado de encontrar voluntários, saindo com ou sem barril, à procura de um homem.
Uma vez encontrado, ele passava a escrever e Marx ia praticar pesca submarina com o seu amigo Spinoza.
Mesmo quando alguns escritos daquele período se tornavam mais corrosivos consta que encontravam defensores que gritavam:
“Laissez-faire” já que “a longo prazo estaremos todos mortos”. Esta última afirmação foi substituída pela verdade tautológica, “negócios são negócios”.
Por falar em negócios, eles acompanharam a evolu­ção da humanidade. Com a onda de modernização atual, está havendo até vendas de indulgências pela Internet. Para os pecadores reincidentes a solução parece ser a Infernet, uma rede mais rápida conec­tada ao Aqueronte. Foi naquelas trevas que Goethe exclamou “mehr Licht”, em protesto pela falta de con­dições mínimas de trabalho. Como foram as últimas palavras do grande poeta, foi providenciada a coloca­ção de luz fria, para almas quentes.
Quando o Paraíso, o Purgatório e o Inferno, ainda não estavam em rede, foi requerido um esforço dan­tesco para descrevê-los. Coube a Dante a missão de agir como agente imobiliário e preparar os folhetos de propaganda dos empreendimentos, distribuídos nas esquinas de tráfego mais intenso. Os propagandistas eram sempre escolhidos com cuidado, tendo por exemplo sido designado Caetano Veloso para panfle­tar na esquina da Ipiranga com a São João. Neste caso, houve um certo equívoco e ele por pouco não foi preso por estar sem lenço e sem documento.
Foi graças à abnegação desses distribuidores de panfletos, que os dizeres da Porta do Inferno “Deixai qualquer esperança vós que entrais”, apesar de repre­sentar um grosseiro erro de marketing, passaram a ser utilizados na entrada de diversas repartições públicas.
Nesses paraísos artificiais, que Baudelaire havia imaginado, em contraposição a Dante, e sob efeito de drogas, foi encontrado o atalho seguro para o inferno.
Exasperado pela subida descontrolada do preço dos entorpecentes Baudelaire teria dito “é o fim da picada” (em original no texto).
Mas este é o destino da humanidade, estranha mescla de propósitos insondáveis, mercê dos quais um dos maiores compositores era surdo, um dos gigantes da escultura sofria de horríveis deformações e figuras grotescas que seria desnecessário listar governam países.

Crônica do livro ´´Almanaque Anacrônico“, Ed. Totalidade

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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17/10/11

Juntar números não significa apresentar um estudo

“Os números falam por si”. Eis um lugar-comum que mereceria um complemento: “desde que corretamente organizados”. É o caso das matérias apresentadas pelo Estadão na página B4 do caderno Economia de 17/10/11.
Um exemplo clássico, vindo do século passado ilustra o ponto. Nos anos de inflação galopante havia uma ‘constatação’ – correlação espúria – : à medida que aumentava o número de gols de Pelé a inflação avançava. Obviamente, as duas sequências de dados nada tinham em comum, e a ninguém passou pela cabeça pedir ao Pelé que, em nome do combate à inflação, parasse de marcar gols. Posteriormente, essa ‘teoria’ afundou. Pelé pendurou as chuteiras e a inflação continuou firme e forte até o advento do Plano Real.
“Assalariados pagam mais IR que os bancos”, diz a matéria do Estadão.
Ilustrando essa “distorção tributária”, o leitor é informado que o IR/trabalhadores no período set/2010-ago/2011 foi de R$ 87,6bi, enquanto os bancos recolheram R$ 36.3bi considerando IR, Cofins, Pis/PASEP e CSLL.
O que se pode concluir? (diga-se de passagem, essa afirmação não é nova, sendo até objeto de estudos acadêmicos).
Nada. Provavelmente, as pessoas físicas (assalariados, profissionais liberais, artistas etc.) devem ter recolhido mais IR que a indústria petrolífera, ou que a indústria siderúrgica, fato que aparentemente causa menor indignação no articulista, a ponto de não merecer menção. Da maneira que os números estão apresentados, é impossível verificar qual a participação de salários e de honorários, ganhos de capital, aluguéis etc. De qualquer maneira, parece um equívoco misturar assalariados com pessoas físicas em geral. A conclusão do artigo ilustra um outro ponto: É possível chegar a uma conclusão correta a partir de observações desconjuntadas.
De fato, ninguém poderá contestar que: “Não basta o Estado bater recordes de arrecadação…”
A seguir um outro artigo ilustra a “imparcialidade” tão necessária ao se examinar um problema. Diz a manchete “Setor financeiro tem benefício de R$ 26 bilhões”. Ah, os miseráveis – seria a primeira reação. Uma leitura do texto mostra que a objetividade se faz rara nesses dias.
Um estudo do Sindifisco mostra que um benefício previsto na legislação brasileira, que mais contribui para que os bancos recolham menos imposto é a permissão para remunerar sócios e acionistas por meio do pagamento de juros sobre o capital próprio. Ah, os infames!
O sítio da Receita informa: “Os juros pagos ou creditados, a título de remuneração do capital próprio devem ser tributados exclusivamente na fonte à alíquota de 15%, na data do pagamento ou crédito. O imposto retido não pode ser compensado na Declaração de Ajuste Anual.”
De fato, as pessoas físicas, dependendo do montante de sua renda tributável chegam a pagar 27,5%, mas esse não é um benefício direto do setor financeiro.
Ocorre que o pagamento de juros sobre o capital próprio é uma prática que não beneficia unicamente os bancos, fato que o articulista não procurou informar, justo hoje quando no Estadão na página A2 aparece um excelente artigo, Jornal, qualidade e rigor, no qual o autor, Carlos Alberto Di Franco, frisa a importância de as matérias jornalísticas se diferenciarem pela qualidade da informação, análise etc. “Precisamos fugir do espetáculo e fazer a opção pela informação. Só assim, com equilíbrio e didatismo, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.” Esse é o caminho.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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7/10/11

win win

Num final de tarde particularmente bonito, com os raios de sol incendiando o céu, o Gafanhoto decidiu que estava na hora de visitar o Mestre, ao qual devia migalhas de saber, cujo efeito era tornar menos opaca a ignorância na qual vivia mergulhado. Bem sabia que na condição de um dos “mais bobinhos da turma”, tudo que lhe restava fazer era abeberar-se na fonte do saber.
Ao chegar perto da entrada da caverna – lugar geométrico tradicional dos gurus – sentiu-se algo inseguro, mas logo superou esse sentimento. Encontrou o Mestre sentado na posição de lótus, mirando com fixidez um ponto indefinido, onde as retas paralelas costumam se encontrar.
– Seja bem-vindo.
– Desculpe minha intromissão. Sei que interrompê-lo na sua meditação irá me valer pontos negativos na avaliação final, mas computando o framework risco x retorno, decidi arriscar.
– Audaces fortuna juvat. A fortuna sorri aos audaciosos – em tradução livre. Aproxime-se.
O Gafanhoto lançou um olhar circular – aprendera que um olhar elíptico poderia causar distorções na percepção – mas tudo que viu não passava de um ambiente austero; as paredes nuas da rocha escavada, um cartaz “Proibido fumar”, a pilha de livros de há muito tempo intocados, tudo mergulhado na fumaça originada pela queima de incenso. Tossiu. O Mestre, também.
– Mestre, venho a pedido de um amigo, conselheiro de investimentos, e antes de tratar dos meus assuntos, gostaria de lhe encaminhar algumas perguntas. Teve direito ao mutismo do Mestre, que tanto poderia significar encorajamento, quanto a mais profunda reprovação. Decorridos intermináveis segundos, o Mestre decidiu apiedar-se:
– Tentarei ajudar, mas há uma condição. Depois farei também uma pergunta, para avaliar o quanto assimilou.
– Mestre, sei que a Petrobrás está construindo uma refinaria em Pernambuco.
– Já lhe disse que uma pergunta jamais poderá ser feita na forma de uma afirmação. Un maestro de mi categoria e fuerza jamais faz concessões.
– Perdão, ainda não cheguei a pergunta.
– Seja objetivo, Gafa!
– Essa refinaria é necessária?
– Naturalmente, sabe que apesar de ser auto-suficiente em petróleo há mais de quatro anos, o Brasil importa derivados, sendo a balança comercial negativa nesse particular.
– Como assim?
– O valor gasto com importações é maior que a receita de exportações.
– Mas é auto-suficiente.
– Gafanhoto, sempre haverá um critério segundo o qual chegamos à conclusão desejada. Por exemplo: Você me acha magro?
– Sim. Até evitei mencionar o fato. Parece muito magro.
– Errado, Gafanhoto. Sou é muito alto. Se medisse uns trinta centímetros a menos com o mesmo peso, você me acharia obeso, a medida do meu IMC seria maior que 25.
– IMC?
– Índice de massa corporal, Gafanhoto. Não está familiarizado com o uso de siglas?
– Sim, conheço algumas. PAC, FMI, COPOM… Então a refinaria é necessária?
– Não costumo mudar de opinião tão rapidamente. Não é nem questão de coerência que seria a virtude dos imbecis.
– Perdão. Soube que, para esse, a Petrobrás receberá um financiamento de uns R$ 10 bi do BNDES, parte de um pacote maior. Mais uma sigla.
– Veio me comunicar isso?
– Não, mestre. A pergunta é: Depois de uma capitalização de 70 bilhões de dólares, isso era necessário?
– Gafanhoto, o plano de investimentos da Petrobrás para o período 2011-2015 é de mais de 220 bilhões de dólares. O lucro líquido para esse período será de digamos 20-25 bilhões de dólares anuais. Mesmo com a empresa se desfazendo de alguns ativos, falta dinheiro para cumprir esse plano.
– Entendi.
– Não entendeu, Gafanhoto. Se continuar com essas interrupções nada entenderá. Nunca! Daquela capitalização – a maior do mundo, cantada em versos e prosa ufanista – uns 40 bilhões de dólares já foram gastos. A Petrobrás comprou 5 bilhões de barris a U$ 8,51 cada.
– A empresa ficou com medo que esses barris se evaporassem?
– Não, Gafanhoto. Mas é sempre bom garantir o direito de explorá-los.
– E a Petrobrás tinha esse dinheiro?
– Você não entende nada. O governo entrou com esse dinheiro que a Petrobrás usou para fazer a compra, de modo que no balanço, ao invés de Caixa ela tem os barris. Mas rápido em conta como o conheço, já viu que não sobrou tanto. Sem contar que o governo apurou uma receita com essa venda, que serviu para vitaminar o superávit primário.
– O Governo tinha esse dinheiro, para capitalizar a Petrobrás?
– Tinha… ou emitiu papel, fez dinheiro e o recebeu de volta. Entendeu?
– Ah. Que governo inteligente!
– É uma pergunta?
– Não, Mestre, é uma exclamação.
– Exclamações não requerem respostas.
– Então, voltando à refinaria Abreu e Lima, a Petrobrás associou-se à venezuelana PDVSA. Está vendo, mestre, mais uma sigla.
– Veio para me impressionar com seu conhecimento de siglas, Gafanhoto?
– Sei que jamais conseguirei impressioná-lo, Mestre. Mas voltando à pergunta, que não tive oportunidade de formular. Essa associação é boa?
– Boa para quem, Gafanhoto?
– Aprendi no curso de doutoramento que um negócio tem de ser bom para ambas as partes. Tem de ser win, win.
– Está grasnando sem razão, gafanhoto. Por que não diz ganha, ganha? Vamos pensar. Numa associação ambos os sócios investem na proporção acordada. Nessa refinaria, cujo custo não para de subir, a Petrobrás entra com 60% e a PDVSA com…
– 40%.
– Sua habilidade numérica não encontra paralelo no mundo inteligente. Já pode tentar uns testes psicotécnicos para ascensorista do Senado. É a última interrupção que tolerarei hoje. Recapitulando. O custo da refinaria, depois de triplicar em relação á estimativa inicial está, por enquanto, em uns 26bi de reais. Por enquanto, a Petrobrás cacifou e a PDVSA apenas reclama da lentidão. O presidente da Venezuela até disse que ‘há setores da Petrobrás que não gostam’, mas ele pretende resolver esse assunto quando falar com “sua amiga Dilma”.
– Isso mesmo. Foi o que li no Estadão. Mas por que será que esses setores não gostam, Mestre, se for verdade o que Chávez disse?
– É que até agora, com 35% do projeto completados a PDVSA não colocou nenhum tostão. Não me pergunte como se chegou a 35% e não a 33,8 ou 38,1%. Não é o momento de falar em algarismos significativos. É apenas um ballpark.
– O que?
– Uma aproximação.
– E por que a PDVSA não investiu ainda?
– Boa pergunta. Como dizia o grande Carl Herrmann[i], responda você mesmo!
– Não quis se precipitar. Ou não tinha.
– Correto. Daí a PDVSA pretende levantar um empréstimo com o BNDES. Somos parceiros. Como você disse, Gafa, quen,quen!
– É win, win, mestre!
– Que seja!
– Ah, com nosso dinheiro? E o BNDES emprestará?
– Para não sair mal na foto, o BNDES exigiu garantias, essa bobagem típica de banqueiro – saber se receberá de volta o dinheiro.
– Para uma empresa do porte da PDVSA apresentar garantias é difícil?
– No caso deles levou meses, até que conseguiram duas cartas de fiança cobrindo R$ 4 bi. Uma delas relativa a 1bi é do BB. – Também conheço siglas. Para os outros R$ 3 bi veio uma carta de fiança do BES português – um banco tradicional com quase 150 anos de vida.
– As cartas chegaram apesar da greve dos Correios?
– Gafanhoto, olhe o respeito!
– Então, a PDVSA não tinha dinheiro para investir, precisou de financiamento do BNDES e parte das garantias foi dada por um banco brasileiro?
– Tudo em casa, Gafa! Somos uma grande família!
– Então o projeto receberá o aporte da PDVSA?
– Por enquanto, não, mas isso deverá acontecer, assim que eles verificarem quanto já se investiu para poder pedir ao BNDES o correspondente a 40%, isso acontecerá. Fazem muito bem querer verificar. Não vão torrar dinheiro à toa.
– Então é um bom negócio?
– Chega de perguntas. Seus assuntos ficam para um outro dia. Agora é a minha vez. Pense e responda. O que é azul, está numa árvore e assobia?
– Não sei.
– Pense, Gafanhoto!
– Ma langue au chat. Desisto.
– É o presidente da Petrobrás.
– Por que azul?
– Porque assim o pintei.
– Por que fica numa arvore?
– Porque lá o coloquei
– Por que assobia?
– Foi para dificultar, Gafanhoto!
O Gafanhoto agradeceu e saiu. Uma lufada de ar gelado o fez estremecer. Caminhou, tentando entender a razão da pergunta do Mestre.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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5/10/11

A PDVSA apresenta garantias para refinaria.

´´Um negócio imperdível, salvo melhor juízo“

Finalmente, a PDVSA apresentou duas cartas de fiança no valor de R$ 4 bilhões, como garantia ao BNDES para a participação na construção da refinaria Abreu e Lima. ( O Estado 4/10 B8)
É o momento de utilizar o linguajar CVMês padrão:
“Os termos “antecipa”, “acredita”, “espera”, “prevê”, “pretende”, “planeja”, “projeta”, “objetiva”, “deverá”, bem como outros termos similares, visam a identificar tais previsões, as quais, evidentemente, envolvem riscos ou incertezas previstos ou não pela Companhia. Portanto, os resultados futuros das operações da Companhia podem diferir das atuais expectativas, e o leitor não deve se basear exclusivamente nas informações aqui contidas.”
Dessa maneira, ninguém poderá dizer que esse texto é capcioso.
“Acredita-se” que o custo atualizado da refinaria seja de R$ 26 bilhões, sendo esse valor algo como o triplo do inicialmente projetado. O acordo firmado entre Suas Excelências Lula e Chávez previa que a participação venezuelana seria de 40%. Esse percentual foi o resultado de intensa negociação.
Agora, a boa notícia.
O BNDES aprovou as garantias, e as apresentará à Petrobrás. Pergunta óbvia: O que tem a ver a Petrobrás com o uso que o BNDES fará do dinheiro? Perguntará ao BNDES se tem certeza que vai emprestar à PDVSA, ou que receberá o dinheiro de volta no prazo pactuado?
Uma notícia morna: As cartas de fiança apresentadas atestam que o português Banco do Espírito Santo cobrirá 75% do valor e o ‘nosso’ BB o restante (25%). Ou seja, a PDVSA receberá RS 4 bilhões do BNDES, com um quarto disso garantido pelo BB. Além de entrar com um petróleo de pior qualidade, fato que “deverá” encarecer a obra, o que fará a PDVSA, além de cobrar através de Chávez maior espírito de colaboração da Petrobrás, onde de acordo com o presidente venezuelano “há setores que não querem o acordo, assunto que será tratado com “minha querida Dilma”?
A má notícia: Se o custo for de R$ 26bi, como se “antecipa”, a parte da PDVSA seria um pouco maior que os RS 4bi que o BNDES emprestará. Calma, a PDVSA , por enquanto “objetiva” cobrir apenas 40% dos custos incorridos até agora. Depois… “prevê” integralizar o restante. Não haverá problemas, mesmo porque a obtenção das garantias atuais foi bem rápida – alguns meses de tensas negociações. Evidentemente há “riscos envolvidos”, mesmo nesse negócio entre irmãos. Não cabe analisar de quem são os riscos, embora a resposta seja óbvia.
De qualquer maneira, até a PDVSA fornecer seu quinhão de petróleo, “antecipa-se” que o BNDES financiará também a parcela restante da PDVSA. Não cabe discutir a relação BNDES Petrobrás, porque tudo estará em casa. Talvez, um ou outro minoritário da Petrobrás questione. Problema dele.
O que se pode “prever”, a curto prazo, é uma longa discussão para identificar o quanto já se gastou, para determinar o valor dos 40% venezuelanos – sem necessidade de CPI. Chávez não é tolo!
Como as condições do financiamento do BNDES não devem ser escorchantes, o projeto se pagará com relativa rapidez e a PDVSA poderá “planejar” quitar o empréstimo, com o resultado da empreitada, e sobrará apenas uma pergunta:
Para quê essa parceria, já que em breve o pré-sal, além da discussão sobre o pagamento de royalties, estará produzindo à toda, a OGX do empresário Eike deixará de produzir apenas “fatos relevantes” e poderá vender parte de sua produção de petróleo à refinaria Abreu e Lima, sem contar a HRT e outros produtores menores? Depois de assentada a poeira, a PDVSA ficará com 40% do resultado de exploração e… poderemos, mais tarde, imaginar que ela ‘pretenda’ reviver o “episódio Itaipu”.
Seria temerário “acreditar” que sem grandes gastos – não limitados apenas ao custo das cartas de fiança –, a PDVSA “deverá’ se tornar sócio na proporção 40/60 da mais moderna refinaria da América do Sul?

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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