Crônicas do Alexandru Solomon e contadas mais

Aqui, o autor e escritor Alexandru Solomon certamente não deixará o leitor indiferente, porém, dentro de uma leitura com frases bem construídas… O dia a dia, a política, e também o bom humor que prevalece. Desfrutem!

6/5/12

Mais efeito Tostiness.

O debate acerbo em torno de um novo efeito Tostiness não parece perto de se esgotar. A inadimplência está crescendo por causa dos juros altos, ou os juros não podem cair drasticamente por causa do aumento da inadimplência? É claro que nesse debate ovo-galinha é difícil ter razão. Os inadimplentes há mais de 90 dias poderão renegociar, encontrar condições mais favoráveis etc., mas darão lugar àqueles que hoje estão inadimplentes há mais de 60 dias e assim por diante. A fila continua andando, mesmo se debaixo da marquise chover menos. Uma explicação possível que não agrada aos nossos dirigentes é que o fenômeno vem de longe. Poderia ser chamada de “síndrome do crédito farto”, solução encontrada para estimular a demanda e tirar-nos, com sucesso, do atoleiro que a marolinha 2.0 poderia ter causado. O endividamento das famílias dobrou, e esse fato não ocorreu de forma linear, e sim, justamente nas faixas de renda mais vulneráveis. Um cartão de crédito deveria vir com a advertência: “O uso exagerado pode fazer mal à saúde”. Não é o caso de esperar que o comprador de um carro financiado em 60 meses termine de pagar (se conseguir) a última parcela, mas a inadimplência não desabará de um dia para o outro. Há ainda muita ‘sujeira’ no pipeline, ou seja, na tubulação. Tenha dito ou não o presidente da Febraban que “a bola está com o governo”, não deixa de ser uma verdade, pelo menos parcial, e como toda verdade (até sendo parcial), incomoda. É inegável o efeito da ação dos bancos públicos diminuído os juros, mesmo que na propaganda da Caixa apareçam ressalvas em letras miúdas, mas convém lembrar que esses têm por trás o funding do Tesouro. A menos que se queira estatizar o sistema financeiro, o melhor caminho não é o da mão pesada. É fácil dizer que a expansão do crédito dará escala, permitindo compensar perdas, mas como toda sentença baseada na “administração por adjetivos”, é preciso ter cuidado. Nossos bancos estão a anos-luz de distância dos problemas enfrentados em outras plagas, mas não são invulneráveis.
A presidenta Dilma diz não entender que em países com alto grau de endividamento, déficits fiscais estarrecedores, e níveis de inadimplência absurdos se pratiquem juros menores. Mas será que nesses países alguém já ouviu falar em CSLL, Cofins e depósitos compulsórios como os aqui praticados?

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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30/4/12

A agonia da decência

No zoológico, os animais são geralmente decentes, exceto os macacos. Sente-se que o homem não está longe – sentenciou o pensador Cioran. Esse vínculo, no quesito ignomínia, ao qual fazia referência Cioran – ele não devia estar pensando em Darwin – se faz notar na nossa vida pública, onde a decência parece viver, a todo instante, seus últimos momentos, resistindo em um ou outro indivíduo ou comunidade, que juntos, formam um arquipélago precário, prestes a ser submergido pelo mar de lama. Não é preciso ser um Narciso às avessas, prestes a cuspir na sua imagem para chegar a essa conclusão. Nunca antes neste país, a divisa comtiana “ordem e progresso” esteve tão próxima de se tornar uma curiosidade desprovida de significado. Possivelmente, o núcleo resistente seja mais amplo. Em todo caso, isso não fez muita diferença.
O “sucessão” (o grande sucesso, antes que impliquem com o artigo “o”) de indivíduos medíocres, protagonizando uma série interminável de desmandos, e que por fim acabam absolvidos por aparentes ataques de imperdoável amnésia coletiva – traduzida pela recondução a funções que jamais deveriam ter ocupado –, quando não por algumas filigranas “juridículas” não parece ter fim, ou será que agora será diferente? “Vedoinadas”, “Demostenadas”, “Valdomiradas”, “Severinadas”, “Arrudadas” e outras “Mensaladas indigestas” sucedem-se ad nauseam. Uma verdadeira cachoeira de detritos. O comentário oficial é que tudo será devidamente investigado e os culpados punidos, mas na prática, nada disso ocorre de maneira perceptível. Nossa especialidade parece ser um neo-dostoievskiano crime sem castigo. Não existe culpado, logo não há punição, portanto, vamos à praia aos domingos, ou às sextas, ou mesmo às quintas, já que a semana de menos de 30 horas impera no mundo encantado de Brasília. Pois se alguma culpa for cabalmente demonstrada, por acaso acontece algo? Joga-se fora o sofá sobre o qual o adultério foi cometido e la nave vá. Ou impugnam-se as provas. Pronto.
Todos ficam felizes quando surge a diarista que tudo varre… debaixo do tapete. Aparentemente, não existe pecado do lado de baixo do Equador; trata-se apenas de maquinações de uma elite – na qual, nem sempre, se perfilam os “justos”–, inconformada com “isso que está, esteve e, infelizmente, parece que estará aí”.
Uma imprensa vendida, composta por “bandoleiros de plantão” – na (in)feliz expressão de uma sumidade, estaria fazendo o possível para infernizar a vida de abnegados eleitos pelo povo, que só não fazem mais (ainda bem! ) por ter que reagir às aleivosias de uma oposição insubmissa. Será? Salvo os portadores de antolhos ideológicos ou de consciências alugadas, alguém aceita essa patranha? E, por acaso, a oposição de ontem ou a de hoje merece que se lhe entoem hinos de louvor?
“Mas o que ocorre agora sempre aconteceu, caixa dois é algo mais antigo do que andar pra frente, o valerioduto já foi inaugurado na gestão passada, logo faz parte da herança maldita “, o problema é o financiamento das campanhas etc. retrucam, à guisa de defesa, os “aloprados” flagrados, as falsas vestais, os pudibundos de araque. E arrematam: “Vocês” fizeram igual. Tudo isso na esperança de ver malfeitos escabrosos se diluírem no lodo de estripulias praticadas pelos da banda de lá. Melhor do que discorrer a respeito da desproporção entre “ deslizes” presentes e passados, é preferível dizer que nem todos somos os tais “vocês”. A indignação é apartidária, assim como a deterioração dos padrões éticos não é privilégio exclusivo do PT. Trata-se de uma pandemia mundial, mas sua manifestação, ultimamente, extrapola todos os limites, cá, em Pindorama. Trocar o rótulo transformando crimes em ‘malfeitos’ não é a solução. Será que estabelecemos um padrão mundial contra a corrupção como disse a Secretária de Estado Hillary Clinton, ou aprendemos a conviver com um padrão de indecência que bate recordes?
O misto de incompetência que se manifesta nos órgãos comprometidos pela política da entrega ao saque, dentro dos padrões de outorga em regime de porteira fechada a bem da governabilidade, associado à ausência de escrúpulos, que somente a certeza da impunidade pode justificar, não deixa alternativa, a não ser a indignação de “tanto ver triunfar as nulidades”. Pior ainda, chega-se a descrer das virtudes da democracia representativa, atitude que pode levar a uma verdadeira tragédia.
A essa altura, parece não importar haver provas acachapantes contra esse ou aquele homem público. Ele negará até a morte e, caso não haja saída, contará com a morosidade de um Judiciário lento – aparentemente, por ser a justiça cega. A prescrição acaba sendo a repugnante solução. A subseqüente farta distribuição de narizes de palhaço – mesmo sem terem sido necessariamente superfaturados – remove, na prática, qualquer esperança de sair do atoleiro.
Se os ventos favoráveis da economia mundial conseguiram por um tempo jogar poeira nos olhos do distinto público, nada justifica assistir placidamente ao contínuo processo de degradação que, longe de se atenuar, parece oferecer no relaxogozismo ao qual somos intimados a participar, a única saída desse imenso lodaçal. Quando algumas marolinhas interrompem o ciclo de bonança festejado como coroamento de uma sábia maneira de governar, a saída é simples: jogar a culpa nos outros. Nós estaremos sempre certos, o problema (inferno) são os outros. Sartre já dizia isso.
Todos são inocentes até prova em contrário, mas nem todos são ingênuos a ponto de presenciar, inertes, o naufrágio dos valores morais. Indignar-se, mesmo se nocivo à saúde das coronárias é um passo necessário.
Talvez não saibamos votar, mas aprenderemos, antes que seja tarde. Antes que se implante o “habeas mídia”.
Em qualquer país minimamente civilizado, nenhum movimento poderá dispensar um aparato jornalístico, já dizia Lênin. Então, ao invés de quebrar o termômetro que acusa a febre, antes de rotular de reacionários aos que se insurgem contra a podridão, a incompetência, a ineficácia e a omissão, é de todo desejável que a logorréia oficial e das siglas que compõem uma volúvel “base aliada” seja substituída por uma postura responsável, mesmo que isso implique em menos aplausos de platéias domesticadas. Mesmo que alguns mitos se desmanchem, mesmo que algumas biografias fiquem tisnadas para sempre. “A verdade está em marcha, nada a deterá”. Não é preciso ser Zola, para acreditar nisso.
Estamos diante de uma oportunidade histórica de passar o país a limpo, para usar um bordão banal cujo significado não deveria nos escapar.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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25/4/12

Lirismo exacerbado.

Dois editoriais do Estado (15/4) chegaram a surpreender este fiel leitor, se é que cinquenta anos caracterizam, se não fidelidade, ao menos, assiduidade.
O governo é apresentado como uma entidade frágil – “emparedado” por multinacionais e indústrias locais. Ora, negociar é preciso e será inevitável atender pretensões dos Estados, caso se queira progredir. De fato o KW brasileiro é caríssimo, mas não se tornou assim da noite para o dia. “O governo emparedado” tem de discutir ICMS com os Estados e PIS/COFINS, internamente. É desagradável, cria atritos, pouco recomendáveis em ano eleitoral, mas o que fazer? C´est la vie. Ano sim, ano não, temos ‘ano eleitoral’.
O uso de um estilo que mistura o épico e o lírico desabrocha no texto: O desafio ao poder dos bancos. “Pela primeira vez … num regime plenamente democrático o governo enfrenta…”. Parece um pouco o já clássico “nunca antes”?… Sem entrar em considerações sobre as dimensões do spread e seus componentes, é estranho encontrar num editorial de um jornal do porte de O Estado passagens que parecem extraídas de uma assembleia sindical.
Ora , o governo enfrenta os tubarões, os patrões insensíveis que mascam seus charutões enquanto praticam agiotagem. Ocorre que o governo detém o poder. Se não “ousou desafiar” antes, quem sabe, não era do seu interesse, já que se locupleta com algo que tende a ser a parte do leão (com ou sem trocadilho) dos lucros.
Talvez tenha faltado habilidade à Febraban na reunião da famosa terça-feira, a ponto de causar ataques de nervos. Tudo é possível.
Mesmo indefeso e obedecendo às regras do jogo de um regime plenamente democrático, existe a possibilidade das ”mexidas” promovidas pelo BC. Por acaso não foi o que ocorreu por ocasião dos “planos econômicos” – em pleno regime democrático – quando as correções de créditos e de débitos (sim, isso também ocorreu) foram arbitrados pelo BC?
Fazer cara de paisagem agora é fácil.
Fala-se na concentração e ela existe, mas por acaso será que, em muitos casos, a tal fagocitose não teria ocorrido por estarem “os engolidos” em má situação – e a pedido das autoridades monetárias? “Sem contar que o BB e a Caixa também participaram desse processo, inclusive ”atropelando por fora”. Quanto à duvida assim expressa “Se esse lance produzirá algum bom efeito, só se saberá mais tarde”, a resposta é simples.”Depende”. Depende porque a mão forte do acionista controlador – “O governo emparedado” –, pode levar as duas instituições a praticar qualquer juro. Não haverá risco de quebra, uma vez que o Tesouro já mostrou saber lidar com apertos. Assim, não há o menor risco de ler, um dia, paráfrases do tipo “quebramos o BB, mas chegamos a juros ‘civilizados’!” Quem poderiam ficar preocupados, num primeiro momento – e conforme for, num segundo, também – são os minoritários do BB. Mas eles já tiveram o exemplo dos minoritários da Petrobrás e viram que no fim dá tudo certo, ou quase.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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21/4/12

Discurso sem método

´´Como sempre, os culpados são os outros.“

O Senhor Ministro da Fazenda passa ao ataque. Boccaccio dizia que as ameaças não passam de armas de um ameaçado. Que ameaça estaria pairando sobre o autor das inúmeras apostas – perdidas – quanto aos resultados de nossa economia?
Fruto de sua análise, ou no papel de porta-pensamento de um poder mais alto, Sua Excelência declara: “O Murilo Portugal ao invés de apresentar soluções, anunciando aumento de crédito, veio aqui fazer cobrança de novas medidas do governo”. Seria fácil responder com uma citação de um dos ícones do marxismo, Friedrich Engels: “Que ingenuidade infantil erigir sua própria impaciência em argumento teórico”. E como é fácil desempenhar o papel de vítima incompreendida, contrariada e indefesa tendo à disposição o Diário Oficial!
No entanto, é o que está acontecendo.
É prova de esperteza livrar-se da argumentação de um oponente, enquadrando-a numa categoria que não atrairá a simpatia da audiência. Os bancos ganham, até acho isso bom, mas … aqui entra o “quero, porque acho que sei melhor”. Schopenhauer já havia esquematizado essa estratégia no seu trabalho “A arte de ter sempre razão”.
Ao mostrar apenas uma face da moeda: ”Nossos spreads são os mais altos do mundo – perdendo apenas para um obscuro país africano”, o Sr. Ministro omite um outro fato: Os impostos que aqui gorjeiam, não gorjeiam como alhures. Sugerir que se atenue a cunha fiscal seria repassar a conta para o governo? Ou do nosso caos tributário não abrimos mão?
Pode parecer excesso de prudência, mas no caso do crédito para a aquisição de um veículo, a reserva de domínio passa a ser insuficiente caso de um automóvel financiado em 60 meses, quando ocorre um acidente de percurso do devedor, lá pela altura do quarto ano do contrato.
Falar da ‘iniciativa’ do BB e da Caixa não está fora do escopo, mas basta lembrar que o BB sofreu alguns percalços e foi preciso ser “rebocado” com dinheiro nosso. (aqui estou usando um eufemismo).
Por fim, o desejo de “vitaminar” o consumo através do crédito contém um perigo e uma visão algo apressada. Um aumento do consumo, através da oferta de crédito abundante representa uma antecipação do consumo, empurrando o buraco para além do atual mandato. Seria essa a estratégia? Falar na possibilidade de formação de uma bolha de crédito pode parecer catastrofismo, mas como saber? Claro está que o homo economicus já endividado poderá ser atraído por um juro mais baixo. Mas se ele já adquiriu o bem sonhado, dificilmente adquirirá um terceiro fogão, ou mais uma geladeira. Não basta dizer que “os consumidores estão com vontade de consumir”, como afirmou o Ministro da Fazenda, é preciso combinar com eles. A estratégia de CE credit easing difere do famigerado QE – quantitative easing, fonte de tantas reprimendas a outros chefes de estado. Natural: os méritos são nossos, o inferno são os outros. Basta ver o que aconteceu nas economias inundadas de dinheiro. O crédito não aumentou e o excedente de liquidez virou tsunami. O spread lá fora é mais baixo, mas o consumidor evita endividar-se, o empresário reluta a investir, daí … sobra dinheiro. Em 2008/9 quando a saída encontrada foi através do crédito o endividamento das famílias era, grosso modo, metade do atual.
Com todo o respeito, e abusando de citações, vale lembrar Galbraith: “Os discursos na nossa época são vento com o qual preenchemos o vazio”. Isso se aplica também ao zéfiro proveniente do Planalto e adjacências.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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17/4/12

Um pouco de aritmética.

Recentemente, a Presidente Dilma afirmou que não fazia “considerações políticas” sobre o spread bancário, mas achava tecnicamente de difícil explicação. Entre uma reprimenda a Angela Merkel e outra a Barack Obama, que não devem ter perdido o sono por conta desse puxão de orelhas, os bancos oficiais foram à luta. O embate promete.
Deixando de lado clichês repetitivos como a ganância dos banqueiros e por aí vai, uma consideração aritmética talvez torne o assunto menos obscuro.
De pronto, é importante frisar que o que se segue é uma simplificação sem nenhuma pretensão de rigor. Com efeito, são inúmeras as linhas de crédito com suas respectivas normas: à pessoa física, à pessoa jurídica, à atividade rural, ao microcrédito, crédito consignado, poupança, crédito direcionado etc. sendo que o perfil das carteiras muda de banco para banco. Mesmo assim, é possível tentar um cálculo simplificado. É óbvio que qualquer simplificação leva a distorções, e não há a pretensão de se apresentar um estudo, e sim, um exercício de aritmética. Fosse o assunto tão simples, já haveria uma solução, ou, pelo menos, menos polêmica.
De qualquer maneira, é surpreendente que estudos sérios – pelo menos muito mais elaborados – atribuam pouco peso ao compulsório. (Sinal de que a simplificação que se segue parte de elementos mal dimensionados – ou então, está todo o mundo errado e este Joâozinho do passo certo… certo).
Seja então um banco cujo total de depósitos seja 100%.
Naturalmente, cada linha possui um custo e suponhamos que um valor de 10% a.a seja uma aproximação válida; (um valor da ordem de grandeza da SELIC, hoje e por mais uns dias, 9,75%).
Admitamos que o valor do recolhimento compulsório seja de 35% para todas as modalidades – simplificação que está longe de retratar a realidade – há parcelas remuneradas, outras, realmente esterilizadas e os percentuais variam.( o valor de 35% foi obtido de Valor 11/4 C16, assim diluo minha responsabilidade).
Vamos admitir que o valor dos impostos que uma instituição financeira paga seja de 40% sobre seu resultado –, considerando o IR e a CSLL (sobre o lucro) bem como o PIS, a COFINS e o IOF que nada tem a ver diretamente com o lucro. (Claro que se houver prejuízo, bobagem falar em IR e CSLL).
Então o Banco X dispõe de 65% do total para aplicar, os outros 35% foram recolhidos, certo? Para que empate, deverá lucrar 10% – o custo vizinho da SELIC – sobre os depósitos. Como existe uma inadimplência da ordem de 5%, o Banco X deverá extrair esse lucro a partir de 65-3,25 (5% inadimplência de 65), ou seja, sobre os 61,75.
Vale relembrar que nem todas as formas de depósito compulsório têm a mesma remuneração e no que se segue foi admitida uma remuneração nula – mais uma aproximação – se quiserem, um afastamento da realidade!
Portanto, a taxa de juros necessária para empatar será dada, nesse exercício simplificado, não é demais ressaltar, por:
X*0,6 (efeito impostos)*61,75% =10 ou seja, X= 27% a.a
Já se tem um spread de 17%.
Supondo que o Banco X deseje lucrar, seja esse lucro de 2 (2% sobre o valor dos depósitos)
X*0,6*0,6175=12 resultando X= 32,4% a.a, ou seja, um spread de 22,4% – com certeza, maior que alhures, mas os impostos que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
Evidentemente, esse valor não pode ser comparado com o spread praticado nas modalidades de crédito Cheque especial ou cartão de crédito (modalidade mais para UTI do que para SUS, e os consultores financeiros não se cansam de recomendar que essas linhas sejam utilizadas apenas em caso de extrema necessidade e por pouco tempo; a oferta agressiva de crédito – solução encontrada para sair da “encrenca” de 2009 – explica em parte a ocorrência de desastres financeiros) assim como não se compara com as modalidades de crédito direcionado (em geral subsidiado), mas serve para ilustrar a influência de uma série de fatores sobre os quais as instituições financeiras não têm influência alguma.
Fica uma pergunta no ar, sem muito a ver com a aritmética. Como financiar um carro em 60 meses, sabendo que após 3 anos ele se desmancha no ar? (não citarei marcas/fabricantes, pero que las hay, las hay).

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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12/4/12

Avanços teóricos?

´´Estimular a industrialização“, segundo Amir Khair.

Em seu artigo no Estadão 8/4 B5, o autor, engenheiro do ITA e mestre em finanças públicas pela EAESP/FGV, credenciais respeitáveis, concorda que as medidas tomadas recentemente – uma espécie de Brasil Maior II – embora no rumo certo, não são suficientes, num ambiente dramaticamente descrito como sendo o “da maior guerra comercial da história”. É possível concordar ou não com a intensidade das tintas sombrias, afinal nem só de Caravaggio vive o tenebrismo, mais instigante é a passagem em revista das medidas destinadas a completar “o que falta”, na visão do autor.
Reformas. Para A.K. as reformas são necessárias, porém sua aprovação não é fácil. Antes de jogar a toalhas nesse quesito, afinal o que é fatigoso não merece ser descartado sem mais, vejamos os argumentos. “Fato é que não são fáceis de serem aprovadas” por envolverem fortes interesses. Então? Prossegue o autor: “Essa reforma (trata-se da reforma tributária) só poderá ser aprovada se o governo bancar as perdas de arrecadação nas operações interestaduais que poderão ocorrer para oito estados”. Uma reedição de “mini-leis Kandir”.
Na pressa de enterrar esse assunto não são mencionados outros monstrengos que empurram o empresariado para soluções “criativas”, objeto de intermináveis litigâncias com um Poder, por vezes, Juridículo (opinião controvertida). Talvez seja o ICMS “La bête noire” (ou afrodescendente), mas não é a única. E os impostos em cascata (ou Cachoeira, com o perdão pelo trocadilho)? Ainda bem que não se menciona a falecida CPMF ou sua sucessora, em oportuna hibernação, a CSS. Para a reforma previdenciária, segundo o autor, não há nada a fazer. Ela “deixou de ser necessária”! “O sistema urbano é e continuará sendo superavitário e o sistema rural que é deficitário, tende a sê-lo cada vez menos com a redução da população rural”. “E de qualquer maneira essa reforma nenhum impacto teria sobre a indústria”. Ualll, como dizia Paulo Francis… No mínimo, esse buraco – lamento informar que ele existe – não permite que haja mais investimentos! Assim como não te banharás duas vezes no mesmo rio, o mesmo ducado não servirá simultaneamente a dois propósitos. Ou não?
Quanto à desoneração da folha de pagamentos, dificilmente se vê como a mudança no caso dos call centers reerguerá a indústria. Esperemos a noventena. De um modo geral, A.K afirma que essas reformas – todas – são de difícil consecução por enfrentar resistências. Ah, bom! Se é difícil, vamos ao próximo item.
Câmbio. Seguindo o artigo esse é o segundo problema da tríade maléfica. Nesse caso há de tudo. O professor Bresser acha bom um dólar acima de R$ 2,6, A.K considera que um valor acima de 2,00 seria recomendável. Messieurs, faites vos jeux. (façam suas apostas) Não há nada de mal em apresentar números, mesmo por que com nosso complexo de cidade sitiada, tendemos a querer uma bandeira debaixo da qual marchar. Estranha a teoria de A.K segundo a qual um dólar mais alto não causará inflação, pois os preços “lá fora” estão estagnados e/ou cadentes. Naturalmente, ele não se refere aos preços de petróleo, já que a mão pesada do Governo os endireita por aqui (a que custo, não interessa perguntar). Mesmo assim, os sinais de deflação não se fazem presentes “lá fora”, de sorte que à probabilidade de a desvalorização trazer alguma inflação não se deve associar automaticamente o valor zero. Vale a frase jocosa do Ministro Pimentel, respondendo à pergunta se ele se sente confortável com o dólar a 1,80. “Quando a gente viaja, é muito bom”. O conselheiro Acácio teria acrescentado que a 1,70 era melhor ainda. Fechar parênteses.
Mais interessante é a teoria de A.K que preconiza o combate ao excesso de moeda externa com a emissão do correspondente em reais, ampliando a base monetária. Os mal intencionados falarão em possível explosão inflacionária, mas (felizmente) não há como saber. Ficamos, por enquanto, com o tal carry trade lusitano (com todo o respeito) que consiste em emitir dívida com a taxa SELIC ou parecida e adquirir reservas a serem aplicadas em T-bills ( antes que algum gênio da lâmpada decida aplicar num projeto tipo TREMBALABRáS). Se o aumento de liquidez fosse uma solução, seriam eliminados/reduzidos os depósitos compulsórios, o que nos leva ao terceiro ponto da argumentação.
Taxa de juros. A idéia é que através do corte de juros das instituições públicas, as demais tenham de acompanhar – follow suit diria um esnobe , ou um bridgista, o que dá quase na mesma. Com isso, haveria um aumento da oferta (de dinheiro) que de acordo com a teoria de J.B Say, já na naftalina, criaria sua própria demanda de bens. Sem maiores digressões, vale lembrar que o endividamento das famílias está em quase 50%, fato inédito por essas bandas. Seria importante dispor de uma distribuição por faixas de renda desse endividamento, que obviamente não deve ser o mesmo para todos os estratos. Mesmo com corte de IPI e juro farto e barato, o apelo para a compra do segundo fogão não deve ser irresistível. Isso dificulta um pouco a ocorrência do círculo virtuoso ao qual se refere A.K. É fato que em outras economias o endividamento das famílias é (muito) mais alto, razão pela qual, essas procuram “desalavancarem-se”, o que explica o marasmo da economia americana. Ainda segundo A.K seria risível o argumento dos bancos segundo o qual o spread se deve à elevada inadimplência. Ele argumenta – retomando a teoria do ovo e da galinha – que seria o spread a causa da inadimplência e não o contrário. Na verdade, trata-se de um ciclo, mas no caso das famílias super-endividadas, há muito de falta de educação financeira, que faz com que o raciocínio ingênuo “a prestação cabe no orçamento, vamos assumir mais essa” leve a modalidades tipo UTI – o cartão de crédito e o cheque especial, que mesmo com taxas cortadas ainda poderão ser letais. Encorajar o endividamento das famílias é, no mínimo, uma faca de dois gumes. (Abstenho-me a citar o folclórico Vicente Matheus). O caso das pessoas jurídicas é mais complexo, mas como A.K passou ao largo, vale imitá-lo. Finalmente, premido pela falta de espaço, sem dúvida, A.K não se deteve na análise de dois outros elementos recorrentes nos debates acerca do nível do spread: a assim chamada “cunha fiscal” e os depósitos compulsórios, sendo que esses últimos, a exemplo dos juros também são campeões mundiais.
A sonhada reforma tributária, assunto do primeiro item, poderia aliviar a carga dos bancos que pagam IR, PIS, COFINS, IOF, coisa que também não se vê alhures. Hoje, o Governo é o maior sócio dos bancos através dos impostos que arrecada. Quanto à resistência dos bancos privados há um argumento que só se levanta em voz baixa: os bancos privados não dispõem do “funding” do caixa do Tesouro, o que os torna, compreensivelmente, mais prudentes, excessivamente prudentes na opinião do Sr. Ministro Mantega, cuja longa vivência no setor lhe permite opinar com propriedade. Vale lembrar que tanto os bancos privados quanto os públicos dispõem de outras linhas de ganho. As autoridades monetárias sabem disso e tentam “vitaminar” as instituições públicas. Até bem pouco tempo o crédito consignado era um privilégio do BB até que o STF interveio. Obviamente, é desejável um nível mais baixo de juros, assim como é desejável que isso não ocorra por meio de “canetadas”. Como diz A.K na conclusão do seu artigo :”vamos acompanhar’.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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11/4/12

Complexo de cidade sitiada.

Perdoamos às pessoas não compartilhar as nossas opiniões.
Só não lhes perdoamos ter as suas.
Sacha Guitry

O povo unido jamais será vencido.
Frase ‘curinga’.

Nada consegue estimular mais uma coletividade do que uma ameaça, real ou imaginária, a todos os seus membros. Diante do perigo, cerram-se fileiras, jorram palavras de ordem e, com bandeiras, ideológicas ou não, marcha-se rumo ao triunfo, que passa necessariamente pela aniquilação das causas do anúncio de infelicidades futuras.
De Tróia a Leningrado, passando por Carcassonne, a resistência foi a tônica.
Vez por outra inexiste a ameaça do aniquilamento. Investimos contra moinhos de vento, mas isso faz parte do jogo. É só escolher com cuidado os moinhos. Nesses momentos intervém a habilidade dos manipuladores de opinião. Criam-se perigo fictícios, inimigos imaginários, ameaças fantasiosas. Alguns exemplos?
Tomemos o caso do Sr. Jerôme Valcke que ante uma situação concreta, emitiu uma frase desastrada, insolente, nada diplomática. O famoso “coup de pied aux fesses”, cujo impacto, na língua de Voltaire é bem menos agressivo do que traduzido ao pé da letra em Português.
Pronto. A honra nacional foi vilipendiada. Ultrajados, deputados, senadores ministros rejeitaram com indignação a irreparável ofensa proferida pelo ‘vagabundo’. (Marco A. Garcia dixit). Pouco importa o que a motivou, o real e (quase) irreparável atraso das obras da Copa. Não contentes de chamar de vagabundo, há uma total rejeição a uma figurinha com poder de transferir a Copa para outro país. Ele não passa de um sub do sub – frase imortal de autoria do Nosso Guia ao se referir a Robert Zoellick. Outros, sem conseguir emplacar o Dia do Saci, desenvolveram interessantes teorias sobre a eficácia do nosso jeitinho, motivo de ufanismo idiota e pretexto para tranquilizar espíritos mais inquietos. Situação e oposição, juntas, estão determinadas a resistir. Resistir a quê? À realidade?
Consideremos agora a tese da desindustrialização. É bem provável que haja fundamentos para afirmar que este fenômeno ocorre, embora a participação do setor industrial esteja encolhendo também em outras economias mais desenvolvidas. Há várias causas, entre outras – e não se trata das menos importantes – a ineficiência geral devida ao custo Brasil, às deseconomias decorrentes de uma carga tributária caótica, à guerra fiscal etc. Admitir isso seria de uma rara falta de habilidade. Será preciso estimular o espírito animal do empresariado, que se compraz no espírito vegetal, parasitando, desde priscas eras, favores governamentais.
É tão mais cômodo, mais oportuno, mais prático, enfim, encontrar inimigos (sempre maldosos) prontos a devorar nossos frágeis 8 milhões e tantos quilômetros quadrados.
O mundo desencadeou uma guerra de moedas, as economias desenvolvidas prepararam um ‘tsunami monetário’ com o único objetivo de colocar-nos de joelhos. Mas isso não acontecerá! Vamos ensinar-lhes os princípios básicos da Economia, vamos defender (debilitando) nossa moeda! Obviamente, não seremos o rabo a agitar o cachorro, mas para uso interno, estamos reagindo. E tome medidas retiradas do grande arsenal que o ministro Mantega diz possuir. Por enquanto a quantidade de medidas servirá à Receita federal aumentar as autuações, pois a adaptação das contabilidades das empresas não será um passeio às margens do Sena. Bergson dizia que o ser humano é o único capaz de rir… do ser humano. Tá certo.
Identificamos mais um inimigo. O spread bancário. Circulam, na internet, que está sempre certa, casos como o de um indivíduo que aplicou R$ 1000 na caderneta e tomou um empréstimo de R$ 1000 no cartão de crédito. (Por que teria feito tal tolice?) Dez anos mais tarde o endividado deve o PIB do Haiti e sua poupança mal conseguiu agregar um zero à esquerda (antes da vírgula). O que fazer?
Já que a demanda interna está patinando, vamos estimulá-la. Vamos ignorar o endividamento atual (recorde) das famílias e vamos aumentá-lo (depois a gente vê) e vamos baixar os juros. Como? Ora, o BB e a Caixa diminuirão seus juros e os outros seguirão. Pode ser que os acionistas minoritários do BB não gostem da perspectiva de conviver com uma nova operação de embelezamento do balanço via recursos do Tesouro – aquele meu, teu, nosso dinheiro (acionistas ou não do BB) mas está desfraldada a bandeira. O Sr. Paulo Caffarelli já disse que os acionistas se assustam num primeiro momento, mas acabam gostando. Nada de mencionar o detalhe de ser o governo o maior sócio de todos os bancos, via a pletora de impostos que recolhe. Não existe inadimplência, não existe compulsório e essa expressão ‘cunha fiscal’ é uma metáfora que não se aplica. Vamos às compras baratas. Com o IPI zerado estou pensando em comprar umas três geladeiras e vitaminar a demanda.
O petróleo é nosso. Resta decidir se é melhor ficar lá nas profundezas ou virar vil metal. Sob pena de levar o rótulo de privatista, vamos deixar tudo com uma operadora, a Petrobrás, que os entreguistas cogitaram um dia de chamar PetrobraX. (X só nas empresas de Eike Batista) Se faltarem recursos? Bobagem, o Tesouro se endivida, repassa ao BNDES, e este financia a juros camaradas. O custo da operação não importa, se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação.
Aliás, o BNDES parece dotado de recursos infinitos, estando acoplado à máquina de produzir títulos da dívida, naquela famosa operação cujo resultado ninguém sabe qual será. Há recursos para os grandes – os pequenos mal conseguem ter recursos para produzir, ou encomendar e pagar, um estudo de viabilidade nos moldes exigidos pelo BNDES. O pessoal de CUBA deve ter feito um belo estudo de viabilidade para seu porto de Mariel. Isso é geopolítica, entende, gafanhoto? Sozinho o BNDES ‘injetou’, bendita seringa, quase 300 bilhões de reais.
Mais forte que o BNDES é o nosso Fundo Soberano – ai de quem disser que se tratou do adiamento do pagamento de uma dívida. O FSB entrará na luta (ao primeiro sinal da Fazenda) e comprará dólares. Não perguntem com que dinheiro, já que quase todos os recursos estão imobilizados em ações Petrobrás e BB (a mais recente cirurgia plástica). Se preciso for, o Tesouro financia o FSB e o BC não precisará comprar tanto. Coisas de bolso esquerdo e direito.
Tudo isso para dizer que enfrentamos os poderosos. Mas será que esses poderosos eram ou são tão hostis?
“Lula enfrentou os poderosos”. Momentinho, depois de eleito e reeleito havia alguém mais poderoso no Brasil?
Agora é a vez de Dilma enfrentá-los!

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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29/3/12

Balões de ensaio

Nessa crônica, aproveitei algumas idéias e frases de um comentário a respeito do ´Fundo Soberano, o das mil e duas utilidades`.

Já não se diz mais “Nescau tem gosto de festa e se prepara sem bater”,
nada de chapéus Ramenzoni, ou “Venha correndo, Mappin, é a liquidação”, no
entanto, são lembranças do milênio que já se foi. Com um pouco de amnésia
delas nos livraremos. Naqueles tempos idos, um fato estranho ocorria nos
mercados financeiros. Não eram mercados sofisticados como o de hoje. Por
exemplo, “Hedge” era assunto de tese de doutoramento, e mesmo assim,
doutores como Scholes e Merton fraturaram a mandíbula com o tal LTCM.

Como, desde sempre, sabe-se que nada há de realmente novo, não custa dedicar uma
lembrança emocionada àquela época e ao tal “fenômeno”. Todos sabem que,
segundo definição geralmente aceita, de acordo com Kant, trata-se do objeto
do conhecimento não em si mesmo, mas sempre na relação que estabelece com o sujeito humano conhecedor.

Com precisão matemática, ou de relojoeiro, se preferem, todas as
quintas-feiras, surgia um boato. Com o risco de ser cansativo, relembro que
“boato” vem do latim “boatus” que significa mugido. Um rumor tomava corpo e
em pouco tempo substituía a verdade ou a falta de notícias interessantes. “Fulano cai”, “fulano não cai mais”, a Petro achou petróleo”, “mas o poço é sub-comercial”. É bem verdade que hoje um boato do tipo “Fulano cai” já se banalizou a ponto de não causar mais o menor impacto.

Ao ouvir o mugido, cuja velocidade, medida em crédulos por segundo, atingia
proporções inimagináveis, as vaquinhas de presépio – por deformação
profissional ou vocação – entravam na onda, e fortunas trocavam de mãos. Falava-se em
“Boato das quintas”, ou seja , era uma sacanagem anunciada. Todos sabiam tratar-se de
notícias forjadas, no entanto, antevendo a ocorrência de um efeito manada,
os integrantes do jogo raciocinavam mais ou menos assim: Sei que não é
verdade, mas ‘os outros’ vão entrar nessa onda, então é melhor antecipar-me.
A questão era apenas saber se já não se estava entrando tarde na tal onda,
fato que só poderia ser verificado a posteriori. Para não perder a festa, a
massa de manobra dos verdadeiramente espertos – envoltos até hoje no manto
do anonimato, afinal, central de boatos não possui razão social, CNPJ, nem
endereço – fazia exatamente do que dela se esperava para gáudio dos lobos,
sempre dispostos a tosquiar – tosquiem, mas não matem era a ordem do dia – os trouxas como sempre a postos, ou de plantão, caso prefiram pensar assim. (lobo tosquia?)

Data da mesma época, rotular essas manifestações de “ruído”, termo tomado
emprestado da teoria da Comunicação, segundo a qual: ruído é qualquer
distúrbio ou perturbação que provoca perda de informação nas mensagens.

Com o advento de uma era nunca antes vivida – nada há de espantoso nisso, já
que ninguém chegou a viver hoje o dia de amanhã – a central de boatos deixou
de existir, dando lugar à administração por balões de ensaio. “O governo examina… e lá vai o balão’.
Tratava-se de surtos pontuais, mas agora temos um fenômeno diferente.

Temos pela frente o chamado “ruído branco”. Antes que me acusem de
escorregar no politicamente incorreto, direi que – se bem me lembro – se
trata de um sinal aleatório com densidade espectral constante, ou seja, em
qualquer faixa do espectro o sinal possui a mesma potência. Dito de outra
forma, algo mais imprecisa, o ruído branco possui todas as freqüências.

Traduzindo, o boato das quintas, agora, ocorre todos os dias, dentro da
estratégia de soltar uma nuvem de balões de ensaio. Um bom exemplo é a tal
“nova postura, menos cautelosa” recomendada pelo Exmo. Ministro Guido Mantega aos bancos.

Com sua profunda vivência nos mercados financeiros, o Sr. Ministro acha – qualquer um pode achar, mas na posição dele, seria melhor entender do assunto – que há um excesso de prudência por parte das instituições financeiras. Não importa que o endividamento geral represente algo como 50% do PIB, fato “nunca antes ocorrido nesse pais’. Pouco importa que a inadimplência esteja aumentando. O importante é seguir a palavra de ordem: mais crédito. Vamos estimular a procura! (se a oferta for insuficiente, faremos como Scarlett O´Hara, e nisso pensaremos amanhã).

Ao diabo a prudência! Eventualmente o BB e a Caixa entrarão derrubando as taxas. Típica operação de risco zero. Já aconteceu no passado: O BB teve de ser socorrido – perdão, capitalizado – com recursos do Tesouro, meu, teu nosso dinheiro (imprimido ou contrapartida de emissão de títulos). Mera aplicação de Botox financeiro. Como persuadir as instituições financeiras privadas a seguir esse roteiro? Elas não dispõem dessa doce e oportuníssima ‘mordomia’.

O Sr. Ministro da Fazenda consegue emitir com espantosa desenvoltura propostas ou conceitos
que, ao fim e ao cabo, ficarão registrado no folclore dos mercados. Navegar?
Enquanto houver uma onda a favor, navegaremos como ” nunca antes esse país”
navegou. E se a borrasca se abater, a culpada será a de sempre: a herança
maldita, já que da desprezível marolinha 2.0 (por vezes apelidada de tsunami monetário) seus causadores, o FED e o BCE já levaram o devido puxão de orelha da “mãe do PAC”.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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8/3/12

Lucy descobre que a partir de um ponto as costas mudam de razão social.

Outro dia, Lucy invadiu aos gritos a sede do CIL – Comitê para a integração de Lucy. Chorava convulsivamente. Depois de intermináveis minutos, recuperou a calma, mas um ligeiro tremor das mãos indicava que algo a atormentava profundamente. À inevitável pergunta: O que houve, Lucy?, manifestou o medo pânico que a invadira ao saber que um dirigente da FIFA pretendia chutar, ou encontrar quem chutasse os traseiros dos brasileiros para que a novela Copa do Mundo de Futebol chegasse a um final feliz.
– Todos serão chutados? Eu nem recebi o visto permanente. Vão dar pontapé no Cesare Battisti também?
Explicaram que se tratava de uma figura de linguagem e que de qualquer maneira seria muito difícil chutar 190 milhões de traseiros. O argumento aritmético deixou Lucy um pouco mais tranqüila, mas as dúvidas estatísticas não a abandonaram. De fato, havia uma probabilidade de ela receber um desnecessário e sobretudo imerecido chute. De que adiantaria? Ela não fazia parte do Comitê organizador, não estava envolvida com obras públicas, não organizava concorrências públicas… E persistia uma dúvida: Tirando a rudeza da frase, de que adiantariam chutes – ou no idioma do sr. Jerôme des coups de pied au cul? Sem contar com a dificuldade de acertar precisamente o lugar onde as costas mudam de razão social. Bastaria um pequeno erro de pontaria, e o pontapé poderia acertar a coluna lombar, causando danos irreparáveis. “Eu não sou popozuda, não posso correr esse risco” – exclamou Lucy, novamente às lágrimas. Pobre fóssil tendo seus direitos humanos ameaçados. A lei Maria da Penha a protegeria? A complexidade da situação deixava-a presa a horríveis pesadelos. Revoltava-a saber que a ameaça não pairava somente sobre ela e que seus amigos poderiam ser submetidos à medida infame. Haveria alguma lógica nisso tudo?
– Qual é a verdade? – sussurrou Lucy.
– A verdade é demasiadamente nua para excitar os homens – veio a resposta de Jean Cocteau (grande amigo de Zidane) de passagem pelo CIL.
Nesse momento a televisão passou a mostrar a imagem do Ministro dos Esportes, altivo, digno como a estátua do discóbolo de Miron, ou de alguma cópia, que num histórico pronunciamento estava rechaçando com energia os dizeres do francesinho atrevido, assim como no passado tentara fazê-lo com os neologismos. O CIL veio abaixo. A fala contagiante de Sua Excelência foi o estopim da explosão que se seguiu.
– Abaixo a FIFA! Abaixo a França! Abaixo Villegaignon! Vamos reviver a Guerra da Lagosta! A cada coup de pied au cul, saberemos responder à altura! Olho por olho, glúteo por glúteo! Aux armes citoyens – oops, essa fala não é nossa! Alguns mais eufóricos sugeriram o imediato bombardeio da sede da FIFA, ou na falta disso a castração de Jerome Valcke.
Sem entender as razões dessa euforia, mas encantada com a visão das bandeiras agitadas, Lucy concluiu que não era importante saber qual a situação das obras da Copa. Participar do agito era muito mais interessante. Tinha ouvido recentemente a frase cheia de sabedoria de um pensador cujo nome lhe fugia naquele momento de comoção cívica: No fim dá-se um jeito! Mesmo assim, um pensamento aristotélico a invadiu: A dúvida é o início da sabedoria. Por acaso aquele energúmeno teria razão ao manifestar de maneira pouco educada suas preocupações?
– Como estão as obras? Decididamente, o apego à verdade prevaleceu e fez Lucy bater na tecla inicial.
– Está tudo sob controle. Há alguns atrasos, mas reagiremos na hora certa. Haverá alguma correria, um pouco de dinheiro gasto a mais, uma ou outra comissão e um ou outro superfaturamento. E daí? Pecúnia non olet. O dinheiro não tem cheiro. Muito menos o que for para perto dos Alpes – suíços, naturalmente.
– Acredito por que é absurdo – conformou-se Lucy encantada com a elegância da frase de Tertuliano, que tão oportunamente lhe veio à mente.
Pouco depois, nova explosão de entusiasmo, motivada pela declaração do grande diplomata Marco Aurélio Garcia, chamando de vagabundo ao potencial chutador de traseiros inocentes. A gritaria foi incrível! “Nosso herói!”, escandiam os presentes, aparentemente indiferentes à frase de Brecht: “Infelizes os povos que precisam de heróis”. Aproveitando a exultação, o ilustre diplomata revelou os resultados da próxima reunião do COPOM. Os operadores do mercado financeiro pediram licença por alguns minutos e, a partir dos seus smartphones, jorraram ordens precisas. Pecunia non olet mesmo.
A calma voltou ao CIL. Em apenas alguns dias, Lucy conseguira superar o abismo de milhões de anos que a separava dos seus descendentes. Nem todas as suas observações tiveram o dom de deixá-la mais feliz.

Em tempo! O CIL ficou jubiloso ao saber dos pedidos de desculpas que se seguiram e aguarda a retratação do nosso Talleyrand , Marco Aurélio Garcia. Depois, todos irão para a paraia como em Nunca aos domingos. Lucy não entendeu patavina. Para ela, “Un coup de pied au cul” ou “kick the ass”, já que parce que a entrevista que gerou a polêmica foi dada em inglês, dá na mesma. No momento ela procura como se diz chutar traseiro em romeno.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

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3/3/12

Lucy no mundo das privatizações

Empolgada com a cena brasileira, Lucy resolveu entender um pouco melhor os acontecimentos recentes da terra que a acolhera de maneira tão hospitaleira. Mesmo sabendo que um profundo entendimento não poderia ser adquirido sem acaloradas polêmicas, decidiu não esperar acontecer um surgimento espontâneo da compreensão, preferindo um debate qualificado, rotina com a qual pretendia familiarizar-se.
O CIL – Comitê para a Integração de Lucy – colocou à disposição entendidos em APSCP – Assuntos Polêmicos Sem Coloração Partidária – e organizou um mega-evento com cobertura televisiva, tudo para valorizar a troca de idéias. O fato de o BBB ter sido preterido, de alguma forma, empanou o brilho da iniciativa, sem, todavia comprometê-la. De plano, Lucy rejeitou apresentações em Power Point, alegando que nem com a técnica das gravuras rupestres estava familiarizada por causa de uma janela de três milhões de anos. Manifestou uma clara preferência pelo método socrático das perguntas e respostas, no que foi atendida, apesar de os organizadores dos debates não terem certeza a qual Sócrates Lucy se referira: o filósofo, o futebolista ou a ministro português.
Providenciou-se uma mesa irregular – quase redonda, cujo tampo de granito sem polimento algum deixaria Lucy, bastante incomodada com a luz dos refletores, à vontade. Naquelas condições, tornava-se fácil determinar o valor de Pi. (algo como 4) O leiaute foi fruto de grandes discussões, das quais emergiu a luz, como reza o ditado.
Lucy foi colocada entre dois membros da APSCP, sendo que um deles ficou à sua esquerda, ficando ao cargo do leitor paciente deduzir a posição do segundo. Antes mesmo do início do debate, Lucy jurou a si mesma – e juramento de fóssil vale muito – que se, de acordo com Baltasar Gracián, as flechas trespassam o corpo e asa palavras, a alma, ela optaria por uma postura, sem jamais perder a ternura.
O moderador do debate ficou sentado numa cadeirinha de árbitro de tênis, de onde determinava a quem caberia falar. Entre as diversas falas, haveria, de acordo com os organizadores, inserções de comerciais. Ficou combinado que a mesma pessoa não poderia formular uma pergunta e, a seguir respondê-la, sem a ‘rebatida’ do campo adverso. Portanto, nada de dois toques.
Para não fatigar o paciente leitor acima mencionado, e por medida de economia de espaço, será omitida a apresentação dos integrantes do trio. Eis que o moderador fez soar seu apito, sinal combinado para que o fóssil formulasse a pergunta que ultimamente lhe tirara o sono, causando sérias preocupações ao CIL.
“Cavalheiros, que negócio é esse de privatização?” – foi a pergunta formulada inocentemente. Não se poderia exigir mais sutileza de um ser vergando sob o peso de milhões de anos.
– A privatização é uma forma de colocar nos ombros da iniciativa privada um peso que o Estado não consegue carregar de maneira eficaz – respondeu um dos assessores.
– A privatização é um assalto ao patrimônio do povo – foi a resposta do outro, leitor assíduo de Schopenhauer e de “Arte de ter sempre razão”.
Os olhares de Lucy acompanhavam o jorro oratório, sem haver necessidade de mexer a cabeça, esforço que poderia lhe trazer graves danos à coluna, de acordo com o Dr.S.Z – especialista em problemas da coluna. Ao moderador cabia a responsabilidade de evitar que houvesse duas respostas da parte de mesmo debatedor. No regulamento do debate isso significaria haver dois toques, falta que acarretaria a imediata cassação temporária da palavra.
– Gostaria de ouvir mais a respeito. Por sinal, prefiro a troca de idéias à troca de palavras de ordem. E, por favor, não me venham com NAIRU, PIB potencial e outros conceitos com os quais ainda não estou familiarizada.
– Companheira Lucy, veja o caso da Telebrás, que foi vendida a preço de banana…
– … de banana?
– Isso não é verdade. Em primeiro lugar não foi vendida a Telebrás, apenas ações que deram aos adquirentes o controle acionário, tanto é que até hoje existem ações da Telebrás no mercado. E todos sabem que o número de telefones aumentou, que não há mais mercado negro…
– O que é mercado negro? Isso não é uma maneira preconceituosa de se expressar? – quis saber Lucy.
– Isso mesmo, companheira! Nem mencionarei os escândalos detalhados num livro de grande sucesso. Todos sabem que havia dedo do Serra nisso!
– Até hoje, apesar de todos os esforços, nada foi provado! Com tantos anos de poder, não se provou nada. Isso não é estranho?
– Que tal um outro exemplo – pediu Lucy. Falam muito do caso daquela mineradora, da Vale… Lá também houve o dedo daquele senhor?
– Companheira, sempre houve, se não era o dedo dele, era da filha, do cunhado, do primo, do barbeiro dele; breve iremos demonstrar que ele era especialista em inserção digital… Mas voltando à sua indagação, o patrimônio do povo foi vendido a preço de bana… a preço vil.
– Deixe-me ver se eu entendi. A Vale vendia minério antes e continua vendendo depois. Sobre o lucro pagava impostos antes e paga agora também, paga até sobre lucros das subsidiárias já tributadas no Exterior. O que muda é que a parcela de … como se chama isso?… ah, dividendos são distribuídos de outra forma. Hoje paga bem mais porque hoje é mais lucrativa. Por sinal, o governo possui ações da Vale, os empregados também, a PREVI, idem, e pela venda o governo recebeu o valor correspondente ao fluxo de dividendos descontados…
– Companheira, a Vale vale dezenas de vezes mais hoje.
– Por ser melhor administrada – arriscou o debatedor situado à direita de Lucy. Faltou dizer como Epicuro que nada nasce do nada. Ou como emendou o Barão de Itararé: De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
– Mas foi a preço de banana…
– Gostaria de provar uma banana – exclamou Lucy. Antes, umas perguntas: Disseram que um dos consórcios – o que perdeu – era liderado por Antonio Ermírio de Morais, descrito por todos como um empresário de altíssima qualidade. Se o preço de venda era tão baixo, por qual razão ele não ofereceu mais? Outra pergunta: Na conta Povo Brasileiro e/ou, agora, entra mais ou menos dinheiro? Pergunto, apesar de conhecer a resposta.
– E/ou… pois é. O problema é aquilo que vai para esse tal de ou. São aqueles inúmeros ralos…Na privatização…
– Privataria…
– A privatização acabou com um monte de funcionários dependurados nas tetas… Em parte isso acabou. Não foi fácil. Um exército que não souber utilizar todas as armas e as formas de luta de que possa dispor o oponente teria um comportamento insensato…
– Filosofia de elite reacionária, isso deve ter sido dito por um membro da Zelite, um burguês tacanho.
– Foi sim. Quem disse chamava-se Vladimir Ulianov, Lênin para não deixar dúvidas.
– Nossos comerciais, por favor. – o moderador quis se fazer notar.
Depois de informar os prodígios dos quais é capaz um mero desodorante, os anunciantes bateram em retirada.
– E agora, esse processo continua – Lucy mal reprimiu um bocejo.
– Não, companheira, agora temos concessões.
– É a mesma coisa!
– Diz um professor que já foi czar da Economia que se trata apenas de um debate semântico – Lucy apanhou um jornal e mergulhou no desafio de um Sudoku.
– Companheira, os consórcios vencedores pagaram mais de quatro vezes o valo mínimo…
– Dona Lucy, por favor, preste atenção. Não posso ser claro se você (desculpe a familiaridade) não estiver atenta, como já dizia Rousseau. Falemos dos consórcios. Quem são os entendidos de fora que participam desses consórcios? O dono de um clube de aeromodelismo, um…
– Momento – Lucy desistiu daquele joguinho enjoado – a Infraero terá 49% das ações dessas novas estruturas. Se o dinheiro provém em grande parte do BNDES e de fundos de pensão de estatais…
– Companheira, os fundos de pensão vislumbraram uma excelente oportunidade de negócios…
– Deixe-me concluir – impacientou-se Lucy – se esse dinheiro foi mobilizado de maneira tão abundante, por que não foi colocado à disposição da Infraero?
– Nossos comerciais, por favor!

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

criado por Celso Fernandes    16:48 — Arquivado em: Crônicas — Tags:
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Am I a spambot? yes definately
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