“Depois de mim o dilúvio”, exclamou Luís XV. Para aqueles que estudaram história e sabem tratar-se de renomada marca de cigarro, ficou fácil perceber tratar-se de uma das primeiras mensagens contrárias ao tabagismo. Segundo se apurou, a inspiradora dessa mensagem teria sido madame Pompadour. Outros, porém, afirmam que era apenas uma retaliação dirigida contra Winston Churchill, cujos charutos desagradavam à corte.
Mais do que a promessa de sangue, suor e lágrimas, uma promessa líquida e certa, houve quem não se conformasse com o ritual que consistia em acender os charutos numa fogueira, presumivelmente a de Joana D’Arc. E foi para evitar as queimaduras pela proximidade do braseiro que os charutos Churchill, doble corona, possuem o tamanho que tanto impressiona. O ressentimento, porém, possui raízes mais profundas. Nem foi tanto pela qualidade da vitima do braseiro, e sim, muito mais pelo fato de haver sido preterido o isqueiro Bic, uma das glórias nacionais francesas, junto com o título de último campeão mundial de futebol do século XX.
A respeito de Churchill, ainda, as más línguas sustentam, que sempre procurou emagrecer, mas jamais conseguiu se livrar do hábito de comer pão, a tal ponto que, um dia, exasperada pela voracidade do ilustre estadista, Maria Antonieta teria exclamado:
“Se não tem mais pão, ofereçam-lhe brioches.” Mas, tamanho foi o pânico, e o corre-corre subseqüente, que houve quem perdesse a cabeça.
O dilúvio motivou abertura de concorrência pública para a construção de uma arca.
A empreitada foi adjudicada ao desconhecido Noé, o qual superou por estreita margem o estaleiro Verolme. A construção da arca teve a supervisão da UIPA (União Internacional Protetora dos Animais), preocupada com os direitos humanos dos animais.
No trabalho da comissão julgadora da concorrência o item que decidiu a vitória do Noé foi a capacidade de o seu artefato poder pousar num pico montanhoso. Isto atraiu uma ação de impugnação da concorrência por parte do segundo colocado, e aguarda-se o desfecho da ação reparatória. Há mal-intencionados afirmando que a justiça é cega, e por conseguinte não enxergaria ter sido lesivo o contrato, mas há os que afirmam ser tudo um problema que caberia a uma CPI. A discussão continua girando acerca de quem seria o relator dessa CPI. A disputa estaria entre Pedro Álvares Cabral, Iuri Gagarin e o almirante Nelson, cujos detratores o queriam fora da contenda por ser caolho, e menos passível de fazer vistas grossas, devido à influência de Lady Hamilton. Evidentemente, sob a pressão da mídia, tudo será esclarecido brevemente.
O nome da embarcação foi escolhido sem muito critério como sendo Windows 95, nome que retratava o número de janelas colocadas. O nome Titanic, que também era muito cotado, foi descartado para quebrar o gelo entre Noé e a fundação Bill Gates.
Não há registros confiáveis cobrindo a odisséia do Windows 95, mesmo porque Homero, por desconhecer o alfabeto Braille (por ser cego), e encontrar-se a serviço da KGB, colocou, a exemplo de Nostradamus, os eventos em total desordem.
Dirão os leitores mais atentos que Nostradamus nasceu depois de Homero, mas ele tampouco assistiu o Kirk Douglas no papel de Ulisses.
Entre os bichos que se salvaram estavam o cachorro Rin-tin-tin, o burro Itamar, o bacilo de Koch e vários outros. Não estavam sendo admitidos animais bêbados, razão pela qual alguns marimbondos de fogo não puderam embarcar.
Além de ter patrocinado a arca, Luís o bem-amado, monarca crepuscular, por suceder ao Rei Sol, deixou o reino arruinado, tanto é que a quantidade de sans-culottes era muito elevada. Decerto não se tinha a perfeição dos shows do Crazy Horse, mesmo porque os sans-culottes estavam cobrindo a própria nudez, embora sem grande êxito, a ponto de serem chamados de miseráveis.
Coube a Karl Marx, e não a Vítor Hugo, descrever a complexidade das relações de trabalho destes infelizes, num, hoje famoso, show da Broadway.
O próprio Karl Marx, compositor hippie da geração paz e amor, muito apreciado pela sua barba e pela sua urticária, assistiu algumas vezes Os Miseráveis, tentando convencer a todos, ser ele exímio dançarino de rap, e insistindo quanto ao fundo musical ser o do minueto de Bocherini.
Por divergências ideológicas com os produtores, ele foi substituído pelo seu dublê Friedrich Engels, fiel ao princípio de o fim justificar os meios. Impedido de atuar na Broadway, Karl Marx passou a viver de aulas de equitação. Possuía dois corcéis famosos o Corcel I, Bucéfalo, e o Corcel II, ou cavalo de Tróia, presente pessoal de Henry Ford, o seu irmão gêmeo e principal confidente, do Karl, não do cavalo.
A respeito do cavalo de Tróia, é possível hoje entender melhor a expressão “chifre em cabeça de cavalo”, pois o que motivou os companheiros de Agamenon a sitiar Tróia foi um par de chifres, usados por Menelau, razão pela qual teria sido mais indicado usar-se um touro em Tróia, coisa com a qual Cassandra teria concordado de pronto. A infelicidade de Cassandra foi ninguém ter acreditado que, do lado dos troianos, o apoio da Xuxa poderia ter sido importante para conseguir Ibope, mas não para evitar a destruição. Coube a Schlieman identificar, nas ruínas de Tróia, o diário de algumas paquitas.
Mesmo atarefado com as aulas de equitação, Marx afirmou que havia um espectro rondando o mundo capitalista, e consta que este espectro teria sido visto pela primeira vez por Hamlet. Ao fazer um Cooper noturno, preocupado com o que havia entre o céu, a terra e a sua vã filosofia, o jovem príncipe ficou impressionado pela falta de asseio do fantasma, de onde as palavras “algo está podre no reino da Dinamarca”.
Naturalmente a frase fez sucesso, ao se constatar sua aplicabilidade em outros reinos, sendo, contudo, desnecessário estender o conceito a algumas repúblicas. Pode ser que aquilo tenha sido apenas o pesadelo de uma noite de verão, visto do lado errado do espelho pela Alice e pelo Pequeno Príncipe.
Neste ponto, torna-se necessário separar os príncipes em pequenos, que se tornavam eternamente responsáveis por tudo que porventura viessem a cativar, como qualquer candidata a Miss sabe, e aqueles que, inspirados por Maquiavel, procuravam fazer o bem aos poucos e o mal de um golpe só.
Esta separação foi feita pela primeira vez por Heródoto, pai da história. Curiosa época em que se conhecia o pai, a mãe tendo presumivelmente fugido.
Mas a carreira de Karl Marx como instrutor de equitação foi interrompida bruscamente, ao decidir entregar o cavalo de Tróia a Ricardo III, o qual – de tanto gritar “meu reino por um cavalo” – foi obrigado a entregar a Inglaterra ao barbudo Karl, com receio de poder ser levado a algum Procon por prática de propaganda enganosa. Assim, com o plantel reduzido a um Bucéfalo já bastante magoado por não haver sido ofertado ao rei, Marx viveu seus últimos anos em Londres, escrevendo ficção econômica, ramo que veio a prosperar de maneira incrível. No British Museum está exposta a mesa onde trabalhava, réplica da Távola Redonda, onde na ausência de cavalheiros, eram contratados figurantes. É sabido que por alguma fatalidade os cavaleiros de Camelot viraram camelôs em algumas cidades do mundo, constituindo o exército industrial de reserva. A tônica dos trabalhos foi sempre polêmica, resultando de debates. Na ausência de debatedores, Diógenes era encarregado de encontrar voluntários, saindo com ou sem barril, à procura de um homem.
Uma vez encontrado, ele passava a escrever e Marx ia praticar pesca submarina com o seu amigo Spinoza.
Mesmo quando alguns escritos daquele período se tornavam mais corrosivos consta que encontravam defensores que gritavam:
“Laissez-faire” já que “a longo prazo estaremos todos mortos”. Esta última afirmação foi substituída pela verdade tautológica, “negócios são negócios”.
Por falar em negócios, eles acompanharam a evolução da humanidade. Com a onda de modernização atual, está havendo até vendas de indulgências pela Internet. Para os pecadores reincidentes a solução parece ser a Infernet, uma rede mais rápida conectada ao Aqueronte. Foi naquelas trevas que Goethe exclamou “mehr Licht”, em protesto pela falta de condições mínimas de trabalho. Como foram as últimas palavras do grande poeta, foi providenciada a colocação de luz fria, para almas quentes.
Quando o Paraíso, o Purgatório e o Inferno, ainda não estavam em rede, foi requerido um esforço dantesco para descrevê-los. Coube a Dante a missão de agir como agente imobiliário e preparar os folhetos de propaganda dos empreendimentos, distribuídos nas esquinas de tráfego mais intenso. Os propagandistas eram sempre escolhidos com cuidado, tendo por exemplo sido designado Caetano Veloso para panfletar na esquina da Ipiranga com a São João. Neste caso, houve um certo equívoco e ele por pouco não foi preso por estar sem lenço e sem documento.
Foi graças à abnegação desses distribuidores de panfletos, que os dizeres da Porta do Inferno “Deixai qualquer esperança vós que entrais”, apesar de representar um grosseiro erro de marketing, passaram a ser utilizados na entrada de diversas repartições públicas.
Nesses paraísos artificiais, que Baudelaire havia imaginado, em contraposição a Dante, e sob efeito de drogas, foi encontrado o atalho seguro para o inferno.
Exasperado pela subida descontrolada do preço dos entorpecentes Baudelaire teria dito “é o fim da picada” (em original no texto).
Mas este é o destino da humanidade, estranha mescla de propósitos insondáveis, mercê dos quais um dos maiores compositores era surdo, um dos gigantes da escultura sofria de horríveis deformações e figuras grotescas que seria desnecessário listar governam países.
Crônica do livro ´´Almanaque Anacrônico“, Ed. Totalidade
Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br